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Entrevista com Gabriel Araujo: A luta por despejo zero

Há alguns meses o companheiro Gabriel Araújo do Movimento Nacional de Luta por Moradia escreveu uma carta de resposta à carta aberta da companheira Ediane Tibes ao presidente Lula. Nunca tivemos a oportunidade de escrever uma réplica ao companheiro Gabriel, depois de diversas tentativas de compatibilização, combinamos um debate com o camarada ao qual reproduzimos alguns extratos abaixo.

C&T: Companheiro Gabriel Araújo, em sua carta a companheira Ediane Tibes você escreve:

O Presidente Lula, tem seu lastro político advindo de uma segmento totalmente distinto dos demais candidatos da esquerda. Lula tem de prestar constas à sua base social, ele emerge de um proletariado e de um campesinato completamente explorado e massacrado pelo imperialismo, que tem uma forte propensão revolucionária e que constituiu organizações sólidas e com determinada margem de autonomia política ante a burguesia. E são estes que possuem legitimidade e autoridade (organizativa, política e científica) histórica para impor ao Presidente Lula, um programa nacionalista e um governo de trabalhadores. E são à estes, que devemos dedicar todo o nosso dispêndio de forças. Pois apenas eles, podem reverter esse quadro de limitação do reformismo, bem como, da própria política econômica neoliberal, do imperialismo.

https://cienciadostrabalhadorespt.com/2021/11/18/gabriel-araujo-carta-aberta-a-companheira-ediane-tibes-%ef%bf%bc/

Como seria possível para alguém do perfil militante da companheira Ediane, mãe, viúva, com três crianças, batalhando grana para sustentar a casa, chocar-se com o aparelho dirigente do PT? Como que é possível para gente como nós pressionarmos o presidente Lula para atender nossas demandas?

Gabriel:

É um importante passo apoiar a candidatura do presidente Lula. Ele, o presidente Lula, vai querer conciliar mais com a burguesia nacional do que com a imperialismo. Contudo a questão é complicada, vem ai um choque de juros do Banco Central dos EUA, a última vez que algo assim aconteceu tivemos uma explosão de dívida nos países da América Latina(ver aqui , aqui e aqui, )então inevitavelmente o presidente Lula vai entrar em uma rota de enfrentamento com o imperialismo, mesmo que num grau bem moderado. A questão da pressão da luta anti-imperialista é fundamental, vai sair um editorial do Voz Operária (ver aqui), abordando o problema de um programa anti-imperialista.

O programa dos Marxistas não é o programa do Lula. Os comunistas podem avançar mais concretamente. A questão do choque de juros é chave, esse choque vai atingir o agronegócio brasileiro e pode liquidar de vez com o pouco de indústria que resta no pais . Uma redistribuição de renda não seria suficiente, diante do deterioramento da política monetária e portanto da liquidez do país. É preciso um programa mais profundo que isso. E o aparelho burocrático do PT, que quer a conciliação com os golpistas e com o próprio imperialismo já percebeu isso, veja o ataque do DCM ao PCO, e a Gleise defendendo o Boulos quanto a vinculação dele com o imperialismo. A militância anti-imperialista está sendo atacada, e parte da esquerda está sendo cooptada pelo imperialismo, para fazer um papel de tropa de choque do neoliberalismo.

O único sentido é que haja um enfrentamento, um enfrentamento via mobilização da classe trabalhadora em torno de um programa anti-imperialista. Não dá para pensar em ações de indivíduos, pois sozinhos, pessoas como a companheira Ediene, tem pouca força. Mas unificados e com instâncias de aglutinação com um funcionamento mínimo, podem intervir enquanto classe, na situação política. 

Antigamente o PT tinha núcleos de base e isso era a força do partido, agora está sendo proposto a criação de 5000 Comitês Lula Presidente, em uma perspectiva de pauta identitária. Isso precisa ser desmascarado, precisa ser demonstrado que as questões concretas é que precisam ser resolvidas, e não questões de cunho abstrato e secundário. O PT criou até setorial de defesas de animais, enquanto isso, 120 milhões não sabem o que vão ter pra comer no horário da próxima refeição. Isso é ridículo! 

Aqui na minha cidade tivemos três recentes ocupações, e choveu gente na ocupação. O povo está ai e está pronto pra lutar. É nossa tarefa, enquanto marxistas, criar mecanismos para canalizar essa disposição.

C&T: Tudo bem, você coloca questões importantíssimas, mas como? Como organizar este povo, como enfrentar um aparelho que tenta a todo custo dizer que a única saída é a eleição e que tem que esperar a eleição? Como enfrentar esse processo de mobilização dos 5000 comitês eleitorais? Como enfrentar essa ilusão nas instituições?

Gabriel:

O Bloco Vermelho, que se formou durante o ano passado, foi um importante avanço em relação à isso. Aglutinou os elementos mais conscientes e antes mesmo do próprio PT definir pela criação dos comitês de cunho eleitoral, o Bloco Vermelho já havia definido pela criação de 1.000 Comitês Lula Presidente, com uma perspectiva de convocar as massas populares para intervir de fato na situação política. Um caráter completamente distinto ao que se tem hoje, que é apenas visando a eleição, trocando a política concreta pelo marketing eleitoral tosco.

Se essa política eleitoreira e de marketing vai se impor ou não, isso não dá para prever. De toda forma, travar uma luta para que isso não se imponha, pode ser construtivo e pedagógico para avançar na dimensão que os revolucionários reivindicam. Uma luta tenaz, as vezes é mais produtiva do que uma vitória fácil, já diria o camarada Engels em seu texto sobre a revolução e contra-revolução na Alemanha. Precisamos desembainhar nossas espadas. Explicar para o povo o que ocorre no país. E nesse caso, os comitês podem ser esse espaço para travar essa luta, e essa revista, o jornal da Voz Operária, entre outros mecanismos operários de comunicação, podem ser essa ferramenta de esclarecimento e orientação para as massas que se encontraram presentes nos comitês.

C&T: Como você vê essa política de cooptação das organizações operarias e populares a partir de ONGS?

Olha eu vejo um enorme abismo entre a atual direção e a base, hoje a atual direção persegue os militantes que tem uma postura anti-imperialista. Isso precisa ficar claro! Toda a tentativa de organização independente dos trabalhadores é sabotada por dentro das mais diversas formas. Quando você anda pelo movimento vê em diversos lugares o logotipo da fundação FORD e de outras fundações até mesmo da União Europeia. Isso é impressionante! Existe um ataque sério a independência financeira e política do movimento, que vai piorar com as cifras que o Biden está prometendo investir nessas ongs e que vocês repercutiram.

C&T: Qual balanço você faz do ano de 2021?

Gabirel: 

Achei muito importante a matéria de balanço que vocês fizeram sobre a greve sanitária, acho real o que vocês dizem, mas tenho uma diferença, acho que devíamos ir pra rua e não ficar em casa e vocês colocaram que isso era uma tática suicida. Vocês mesmos levantaram que o povo estava sendo infectado no transporte público, então temos que ir pra cima. Agora sim, a direção não organizou uma greve sanitária e as mobilizações que existiram foram implodidas por dentro.

Uma coisa que notei, foi o medo das instituições em relação a mobilização popular. A campanha despejo zero, estima que 400 mil pessoas e 123 mil famílias, estão correndo risco de despejo no país. Além disso, o orçamento de moradia, saiu de R$20,9 bilhões em 2015 para R$800 milhões em 2021. Não houve um levante contra o fim da política habitacional no país, isso foi um grande equívoco, porque grande parte da população não tinha condições de fazer isolamento social. Isso se soma, ao fim do auxílio emergencial, que foi definhando sistematicamente, com cortes sucessivos. E o fim do bolsa família, e a criação do auxílio Brasil. Diversas pessoas que precisavam adentrar nesse programa, que recebiam anteriormente o auxílio emergencial, ficaram de fora, e 3 milhões que estavam na fila do Bolsa Família, também ficaram de fora. Soma-se a essa questão, o fato também de que 67,2% das negociações salariais ficaram abaixo do percentual da inflação.

O parlamento e o judiciário, com medo do início de um processo de insurreição popular diante disso, da fome e do desemprego, resolveu proibir determinados despejos. A medida havia se encerrado em dezembro, mas foi prorrogada, mesmo não havendo uma mobilização (apesar de que havia uma indicação de início de mobilização entorno disso). Acredito que os órgãos de inteligência e repressão, informaram as referidas autoridades ilegítimas, e as mesmas notando a possibilidade de perder o controle da situação, resolveram tomar algumas medidas para aliviar a pressão.

Agora teremos uma mobilização contra os despejos no dia 17 de março. As organizações populares de luta pela terra e por moradia, estão mobilizando suas bases. Se for conquistada a prorrogação da medida, será uma vitória do movimento popular e da mobilização, e que se tiver continuidade para reivindicar outras pautas, pode ser o início de um amplo movimento que arraste outros setores da classe trabalhadora e que poderá desestabilizar o regime político golpista que nos impõe essa política neoliberal de fome, repressão e despejo.

C&T: Mas você veja, a direção não organizou greve sanitária, antes da pandemia o grande ascenso de massas que tivemos foi o tsunami da educação, que foi paralisado pela direção para ouvir a Vaza jato. Então qual trabalhador iria para a rua agora diante dessa paralisia, diante da situação de que já foi pra rua outras vezes e a direção paralisou o movimento quando quis? Sem contar que a palavra de ordem Fora Bolsonaro era uma boia de salvação para as instituiçõesVenderam a ilusão de que a CPI da pandemia resolveria algo e obviamente as instituições golpistas não resolveram nada. Volto aqui a questão. Vivemos um tipo de Ilusões Constitucionalistas?

Gabriel:

A política não nos permite, aos marxistas-leninistas, acreditar que a burocracia dos movimentos populares e sociais, se encontram em uma condição de ilusão. Estão claramente cooptados. Já são quase seis anos de regime político golpista, que nos impõe a fome, a destruição da indústria nacional, etc. As massas, no Tsunami da Educação, na Greve Geral de 2017, nas mobilizações contra o fascismo em 2020, mostram claramente uma disposição de enfrentar a direita golpista e os fascistas. O grande problema, é que essa burocracia quer acordos com os golpistas. E é ai que devemos atacar, porque será através de uma ruptura com essa perspectiva, que vamos dar vazão à este descontentamento popular e a disposição de luta do povo trabalhador, que não suporta mais ser esmagado.

C&T: Um problema que para nós é caro é o problema da perseguição política. Como você vê que as organizações deveriam enfrentar objetivamente este problema?

Gabriel:

As organizações caíram em uma política covarde, abandonaram seus militantes à própria sorte e aceitaram que os mesmos fossem perseguidos. Até o Presidente Lula foi abandonado por essa burocracia. O maior exemplo dessa capitulação e da farsa da luta contra a perseguição política, é o caso da pseudo-revogação da Lei de Segurança Nacional. A substância repressiva da Lei de Segurança Nacional, se manteve na lei que à substituiu. Entrando naquela questão de trocar a política pelo marketing, apenas fazendo manobras para inglês ver, enquanto a essência reacionária se mantém.

As organizações deveriam implementar uma política de formação de comitês de autodefesa, que defendessem seus quadros, com ações jurídicas, financeiras, psicológicas, mobilizações, instruções de defesa pessoal, debater o conteúdo da dialética da violência e do monopólio desta última. Mas o que se observou, é que a burocracia apenas se preocupou em manter seus privilégios, sua condição pequeno burguesa, seus empregos e etc. O orçamento dos sindicatos praticamente desapareceu e não fizeram nada para reverter essa situação, seja pela revogação da reforma trabalhista, ou por meio de campanhas por outra plataforma de arrecadação. Uma posição tão patética, só pode advim de uma posição de capitulação e cooptação por parte do regime golpista.

C&T: Você comprou a nossa revista número 01 “Quem é o culpado pela pandemia?”, O que achou?

Gabriel:

Uma publicação extremamente importante, primeiramente para demonstrar para a burguesia e para a pequena burguesia, que pensam que os trabalhadores não possuem capacidade intelectual e são pessoas de segunda categoria, que os trabalhadores e o marxismo-leninismo, são respectivamente, a única camada verdadeiramente científica e por conseguinte, revolucionária, nos marcos da sociedade atual.

Em segundo lugar, indo no sentido do que falei anteriormente, como não tem possibilidade de existir ciência sem que exista transformação da realidade concreta, a característica de defesa dos perseguidos pelo imperialismo, se torna na comprovação do conteúdo científico da revista, de busca na transformação da realidade através da autodefesa dos trabalhadores. E também revelar para a população quem são os verdadeiros responsáveis pela pandemia, também comprova essa questão da ciência dos trabalhadores ser um guia para a ação, fundamentada em investigações da realidade concreta para a transformação desta última.

O imperialismo monopolizou as vacinas, os testes, e fez demagogia com o tal isolamento social, entre outras coisas fundamentais para que vidas fossem salvas. Logo, ter uma publicação voltada para o esclarecimento sobre essa situação, foi muito importante para combater o senso comum e o apologismo anti-científico, que se tornou a regra durante a pandemia, pelos monopólios de comunicação e as instituições acadêmicas da burguesia.

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Ediane Tibes: Lutamos pelo que mesmo?

Hoje eu ouvi a seguinte fala. “Agora todo mundo virou nazista“…

E pra escrever algo sobre o que está em foco atual é preciso se perguntar algumas coisas…

Como elegemos um presidente que pesa pretos em arrobas?

Como elegemos pra presidente um cara que quando era deputado homenageou um torturador. Me pergunto porque esse cara não saiu de la preso?

Como elegemos um presidente que prefere um filho morto a se assumir gay?

Como a morte de Preto a paulada não gera clamor social e entrar dentro de uma igreja coloca toda uma sociedade com pedras nas mãos pra atacar um manifesto legítimo onde se levou aos pés de um torturado a dor e lamento de outro torturado e morto.a pauladas or buscar seu pagamento no quiosque de um miliciano?

Como mulheres mortas por parceiros em uma sequência alucinante não para o país pra que ações sejam colocadas em prática pra inibir esses crimes?

Como não paramos o país cuja administração atual matou mais de 600 mil pessoas durante uma pandemia. Esse número é só de pessoas acomentidas pelo vírus, mas tem outras mortes relacionadas tipo a fome,. Porquê não vimos as instituições parando esse genocídio??

Não é só agora que tem nazista, genocidas, facistas…é que agora as pessoas se comunicam mais rápido e e tudo está a luz dos olhos.

Mas eu continuo me perguntando como fomos e somos capazes de ações que não condizem o que afinal nos incomoda de fato? Lutamos pelo que mesmo?

Para que fique claro não estou reduzido o nazismo…e sim incluíndo toda forma de extermínio…porque os caras podem ser tudo isso mas precisa manifestar ações nazistas pra ser aplicado leis..

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Fala Petista-Tribuna Livre da Luta de Classes

Diante da enorme crise em que vivemos e dos dilemas que a classe trabalhadora esta confrontada, o manifesto de fundação desta revista teórica diz:

Qualquer um que apresente uma solução neste momento é um charlatão! Não existem soluções prontas, porem a classe trabalhadora tem uma larga história de luta

https://cienciadostrabalhadorespt.com/about/

e completa concluindo que

A emancipação dos trabalhadores é hoje e a cada dia mais , a ultima esperança da humanidade frente a barbarie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora.

Fieis ao nosso manifesto de fundação e certos de que A Emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores , não é um bordão para dias de festa. Pensamos em fazer uma entrevista, uma entrevista com você trabalhador , isso mesmo, com você petista que esta lendo esta postagem. Prometemos manter segredo de seu nome e identificar as respostas apenas como petista 1, petista 2 e assim por diante. Elaboramos algumas perguntas, que esperamos que alguns petistas nos respondam no email emdefesadomarxismo@gmail.com. A cada resposta, atualizaremos a postagem. Essa é para nós a realização do conceito de tribuna livre da luta de classes, onde abrimos nossas paginas para os trabalhadores em geral exporem suas considerações sobre a situação da luta de classes. Afinal de contas:

A Emancipação dos Trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores

Atualizado- 10 de janeiro de 2022

C&T: Como você viu a carta aberta da companheira Ediane aos petistas de Piraquara?

Petista 1:

Sobre as cartas da companheira para os petistas e para Lula:
existe nós, a militância e o partido institucional…
Nós miltantes podemos ir muito além do que o partido institucional pode fazer…

Então cabe a ela, militante, lutar por seu espaço dentro do partido, assim como nós…
Agora Lula como Presidente da República tem que fazer acordos para governar… mas nós como militantes devemos nos posicionar contra determinados acordos politicos que achamos inconvenientes, absurdos, mas não deixar o PT e ir para partidos pequenos e sem representatividade popular, sem aceitação popular…
mas nunca deixar a militância.
A maioria da população é conservadora, reacionária, seja pobre, rica. Não é revolucionária, quer subir um degrau social mas continuar no seu modo reacionário de ser, seu modo individual de ver a sociedade… que eu me dê bem e que os outros se danem…

De vez em quando a gente tem que parar para descansar e recomeçar a luta novamente…

Petista 2

Petista 3:

Sinceramente? Considerei um erro! Acho completamente inútil este tipo de iniciativa . Sou petista há mais de 20 anos, vi as correntes ditas esquerda do PT por anos fazerem campanhas contra certos tipos de aliança e as alianças sempre aconteceram. Esse papo de empurrar o partido , ou melhor a direção para uma posição “mais a esquerda” simplesmente nunca funcionou. Pelo menos em termos de politica eleitoral.

Mas o que me fez responder a este texto foi a divergência com o petista 1. Sinceramente, pelo que vi e pesquisei sobre a companheira , ela teria perdido o marido e esta passando por graves condições financeiras. Como pode um militante nessas condições se chocar com o aparato dirigente do partido? “Existe nós e a direção do partido“, sim, existe mesmo, mas como que um militante se choca com mandatos parlamentares e dirigentes que vivem de politica, enquanto a militância precisa lutar pra defender suas vidas? Acho que essa posição do petista 1 é muito errada, lamento a posição deste blog de aceitar publicar isso, um blog que se diz defender a luta contra a perseguição politica, abre suas paginas para a defesa da perseguição politica? Acho uma enorme contradição! Sera possivel que vocês não veem , que um militante se chocar com a direção, é a destruição do próprio militante?

C&T: Você chegou a ter contato com a carta aberta que companheira Ediane escreveu ao companheiro Lula? Como você vê os dois textos?

Petista 1

ver questão anterior

Petista 2:

Através de compartilhamento no Facebook. Concordo plenamente com a companheira Ediane. Antes já era difícil apoiar alguma aliança com a burguesia. Depois do golpe de Estado de 2016, é inadmissível que essas alianças continuem. Todos os petistas devem exigir a coerência do partido e das lideranças.

Petista 3:

A carta aberta ao Lula eu achei perfeita, pois dialoga com o sentimento de cada petista, de cada trabalhador honesto, que luta contra o patrão. A carta não entra nas querelas paroquiais . Debate realmente com as dificuldades da vida real do trabalhador

C&T: O PT foi intensamente perseguido pelas instituições da republica, primeiro com o caso chamado de mensalão, depois com a lava jato, chegamos a ter dois ex-presidentes do PT e um ex-tesoureiro presos, simultaneamente, você acha que o partido foi negligente com a defesa dos dirigentes?

Petista 1:

Aqui no Brasil nascem pessoas revolucionárias, mas elas não conseguem fazer uma revolução. Quem faz são a direta e a extrema direita, que é um gigantesco retrocesso…
Tem 2 partidos que considero revolucionários:
O Pstu e o Pco, mas a adesão a eles é muito pequena…

Petista 2:

Sim. A começar pelo José Dirceu que não foi defendido.

Petista 3:

Fiquei mais uma vez muito incomodado com a resposta do petista 1, nascem pessoas revolucionarias no Brasil e em todos os outros países do Mundo, eles se chamam classe trabalhadora. Agora com seus dirigentes o tempo todo fazendo acordo com o patrão, realmente fica dificil fazer qualquer mudança significativa.

C&T: E com o mandato de Dilma, ocorreu negligencia?

Petista 1

O golpe contra a Dilma foi uma oportinidade que a direita vislumbrou pra chegar ao poder. E o próprio PT a abandonou quando viu que não tinha mais jeito… propondo eleições diretas depois de ela ter sido reeleita em 2014.

Ela tb errou ao achar que não haveria mais golpe. Que tudo se resolveria no Estado Democratico de Direito, sendo que aqui sempre se praticou o Estado de Exceção… Eu tb achava que não haveria golpe…

Mas como a situação da população estava boa, a sociedade não deu valor ao projeto da ponte para o futuro, digo, para a ponte do retrocesso…

Com a total destruição do Estado brasileiro em curso, com a retirada de todos os direitos do trabalhador e uma brutal transferência de riquezas dos mais pobres para os mais ricos, é que a sociedades está despertando para o nosso caos diário…

Qualquer partido de esquerda que tomasse o poder ou vai tomar, um dia a direita vai derruba-lo…

Petista 2:

Dilma, q até mesmo dentro do partido chegou a ser responsabilizada pelo golpe por não ter jogo de cintura. Além disso, elogios de lideranças petistas a lava jato. Foi abandonada no seu governo.

Petista 3

O Companheiro petista 1 esta muito equivocado, E o próprio PT a abandonou quando viu que não tinha mais jeito… , o PT não defendia seus militantes desde o inicio de 2005. Não abandonou Dilma quando nao tinha mais jeito, abandonou todos que foram perseguidos. Vi gente dentro do partido fazer discurso moralista de defesa da lava jato, alias mesmo Lula e Dilma faziam esses discursos. “A situação da população estava boa?” Sera que vivemos no mesmo pais? Acho que não.

C&T: No caso da prisão de Lula, até o ultimo momento a direção nacional disse, que seria possível, Lula sair candidato, mesmo da cadeia. O PT teve ilusões no quadro das instituições vigentes, mesmo falando em golpe publicamente?

Petista 1:

Se o Lula ganhar a próxima eleição, que tipo de golpe pode vir? Semipresidencialismo, digo, semigolpismo? Prorrogação de mandatos do poder executivo e legislativo? Eliminacao fisica do Lula??? Ou uma emenda a constituição proibindo ex presidentes a concorrerem novamente ao cargo?

O que deveríamos fazer é procurar um método de fazer o cidadão eleitor acreditar mais na politica, acreditar mais em seus direitos lutar por eles e jamais esquecer o passado, antigo e recente… mas como???

Hoje em dia estamos tentando dominar as redes sociais como os fascistas às dominam. Espero que consigamos isso em pouco tempo…
Eu já estou bem melhor do que há 2 anos atrás. Espero que outros também….

Petista 2:

Sim, teve ilusões, pois achou que todos os votos do Lula seriam transferidos para Haddad. Sabendo que Lula não se elegeria, deveriam ter mantido a candidatura dele e usado a campanha eleições para orientar a população em relação ao golpe e eleições manipuladas.

Petista 3:

O camarada petista 1 comenta:

O que deveríamos fazer é procurar um método de fazer o cidadão eleitor acreditar mais na politica. Acho que isso seria puro charlatanismo, fazer apologia das atuais instituições. O bom do povo brasileiro, é justamente que ele não acredita nas instituições. Esse petismo que defende as instituições em uma sindrome de Estocolmo, defende as instituições que perseguem o próprio partido?

C&T: A eleição de Bolsonaro representou o terceiro mandato de presidente roubado do PT, considerando aqui o mandato de Dilma, a possível eleição de Lula e a fraude das mensagens pelo whatsap contra a campanha de Haddad. Mesmo diante disso tudo, o PT é o campeão da defesa do Estado democrático de direito. O que você acha disso?

Petista 2:

Começo a desconfiar que há lideranças ganhando com a atual situação

Petista 3:

Concordo com o petista 2

C&T: A maioria dos trabalhadores, considera que o Estado representa apenas repressão, como vemos nas pesquisas recentes que mediram a popularidade das instituições da republica. Em especial depois do fracasso das instituições em defender os trabalhadores do virus da COVID-19, ainda assim , você considera correto continuarmos defendendo o atual marco constituinte?

Petista 2:

Não, precisamos de uma nova constituição elaborada pela população.

C&T: Você já viveu, ou conhece, algum caso de perseguição politica?

Petista 2:

Depende. Se atuação do militante for contra os interesses burgueses, sim.

Petista 3:

É o que mais tem. Mas parece que não pode falar. É um tema proibido.

C&T: Você acha que existe perseguição politica contra os petistas em geral? Sendo, mais claro, perseguição politica contra os militantes de base do PT?

Petista 2:

Não sei responder.

Petista 3

Isso é o que mais tem, ser petista é terrível! Você perde emprego, perde salario, promoção, ninguem quer te contratar porque você vai fazer greve. Não entendo porque ninguem fala isso claramente.

C&T: Como a perseguição politica deveria ser combatida?

Petista 2:

Ver questão anterior

Petista 3

Acho essa iniciativa de vocês interessante. Fiquei curioso

C&T: Você teve contato com a iniciativa do primeiro numero da revista ciência dos trabalhadores, dedicado a discutir a pandemia e a crise de decomposição do capitalismo?

Petista 2:

Ainda não

Petista 3

Sim, mas ainda estou digerindo a pancada. O Soco na mesa foi com força.

C&T: O que acha da iniciativa de uma revista teórica marxista, que arrecade dinheiro para a criação de um fundo de auto-defesa de militantes perseguidos?

Petista 2:

Uma boa iniciativa, penso ser a mais adequada e eficaz.

Petista 3

Na minha juventude, fazíamos campanha financeira para tudo. Hoje em dia tudo virou ONG. Acho uma reafirmação da independência de classe. Um verdadeiro soco na mesa.

C&T: Como você viu o papel da burguesia imperialista mais importante, a burguesia dos EUA, no golpe contra Dilma?

Petista 2:

A burguesia imperialista é a arquiteta do golpe. Sem a atuação dela, o golpe de 2016 não existiria.

Petista 3

Posso copiar o comentário do petista 2?

Petista 2

Através da força popular: manifestações, greves e trabalho de base

Petista 3

Acho, que o petista 2 deu uma resposta de cartilha, mas a gente precisava de algum tipo de organização internacional, que realmente funcionasse.

C&T: Diante da conjuntura mundial de crise econômica, uma situação na qual os economistas falam que o Modo de produção capitalista passa por sua mais Longa Depressão, superando até mesmo a depressão de 1929, você ainda acha possível a existência de Estados democráticos de direito?

Petista 2:

Não, já penso que eles não existem mais pelo duro ataque contra os direitos dos trabalhadores. O que existem são instituições de fachada.

Petista 3

Faço coro com o petista 2

C&T: Qual pergunta você gostaria de acrescentar nessa lista ?

Petista 3

O que esperar de 2022

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Disponível o primeiro numero de Ciência dos Trabalhadores

A revista Ciência dos Trabalhadores lança sua primeira edição.

O objetivo desta primeira edição é arrecadar fundos para socorrer a

família do companheiro “Nego”, trabalhador Paranaense vitima da Pandemia, que deixou viúva e filhos. Essa é a nossa primeira experiência de constituição de um fundo de autodefesa baseado unicamente na contribuição dos trabalhadores.

Essa primeira edição “Quem é o culpado pela pandemia?” trás uma coletânea de textos, que demonstram com fatos e dados , a responsabilidade das instituições do imperialismo. Como disse o economista britânico Michael Roberts:

Tenho certeza de que, quando esse desastre terminar, a economia dominante e as autoridades afirmarão que foi uma crise exógena nada a ver com falhas inerentes ao modo de produção capitalista e à estrutura social da sociedade. Foi o vírus que fez isso.

Preço 25 reais.

Para adquirir a revista envie e mail para: emdefesadomarxismo@gmail.com anexado o comprovante de pagamento código PIX: 04180809923

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Carta aberta ao Presidente Lula

Por Ediane Tibes

Presidente Lula:
Aqui quem vos fala é uma mulher, mãe e cidadã brasileira que entende que estamos sendo lesados há décadas com a ineficácia dos poderes e instituições públicas em garantir o nosso direito constitucional de morar e produzir alimentos.
A terra, ela é sagrada nas mãos de quem trabalha. O direito à terra é de quem trabalha e produz alimento. Presidente Lula!
Em 2002, quando nós, os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da Cidade, lhe confiamos o nosso voto, depositamos nas urnas também a nossa esperança de ver a reforma agrária e urbana sendo levadas e transformadas em pauta política, com o objetivo de que, movimentos populares, que lutam prá garantir o direito à terra e às moradia prá muita gente, deixassem de serem vistos como ameaça criminosa. Lamentavelmente, nós continuamos sendo mortos, caçados, criminalizados e despejados. Se o Sr. tiver dúvidas, é só pedir prá sua equipe fazer uma busca das ordens de despejo dos últimos 4 anos, inclusive, pedir também as ordens mais recentes, dos despejos ocorridos em meio a essa crise sanitária pela qual estamos passando…
Aí, o Sr de uma olhada: são pais e mães de família, com os filhos, sendo tirados das áreas ocupadas através de ações truculentas que usam o aparato da segurança pública como ferramenta para proteger os interesses dos latifúndios do campo e da Cidade.
Vou contar para o Sr o que ocorre aqui na Cidade onde eu vivo com a minha família, que por sinal o Senhor conhece bem, pois minha Cidade foi a escolhida para o lançamento do PAC, em 2007, quando o Sr e sua equipe aqui estiveram. O Sr se lembra de que minha Cidade abrigava a maior ocupação urbana da região Sul do País, com mais de 50 mil famílias sobrevivendo sem estrutura e saneamento básico. Passamos anos sendo tratados como inimigos do progresso e do meio ambiente, pois somos uma área de mananciais. Piraquara abriga a nascente do Rio Iguaçu e mais um monte de outras pequenas nascentes. Nós também somos responsáveis por 40% da produção de água que abastece a capital Curitiba e as demais regiões metropolitanas. De todo o valor que o Sr liberou em 3 pacotes de recursos, muitas coisas deixaram de ser feitas. Por exemplo, continuamos com ruas que no projeto original seriam contempladas com a cobertura de asfalto e até hoje não foram feitas, isso é só para o Sr saber que a corja corrupta sempre vai sufocar qualquer iniciativa de beneficiar as pessoas mais pobres. Eles roubam na nossa cara e nós amargamos o prejuízo. A situação que ocorre aqui em Piraquara, hoje, é que temos os governos Municipal e Estadual alinhados ao governo genocida do Bolsonaro. O gestor Municipal teve a infame idéia de criar um “comitê de crise” para monitorar, com a ajudá dos munícipes, as possíveis ações de ocupação, dita por eles como ” ocupação irregular” para fins de moradia ao invés de colocar a gestão pra ativar os projetos habitacionais que existem dentro das gavetas das repartições da prefeitura. Eles preferem nos tratar como inimigos do que acolher as pessoas sem moradia e oferecer a elas um projeto que atenda às suas necessidades.
O Sr é um cara que lê muito, né, presidente Lula?
Deve estar acompanhando os jornais e está ciente do que a pandemia escancarou para o mundo todo, e como tem gente em estado de vulnerabilidade, sem ter comida, saúde e moradia. Eu e meu esposo não pudemos ficar em casa com um auxílio emergencial que não dava conta de alimentar nois 5: eu, ele e nossos 3 filhos, além de ter água, Luz e gás prá pagar, senão, a gente fica sem. Então, nois dois trabalhamos até o dia 16/06/2021, quando meu esposo apresentou os sintomas da covid. Nós lutamos com todas as forças, com toda fé, passamos por aquilo que o Sr deve de tá vendo pela TV. À espera pela vacina que demorou demais, à espera por leito de UTI, entubado na UPA – e a gente sabe que, depois do teto de gastos, o investimento na saúde não atende a alta demanda dos dias difíceis que estamos enfrentando… Então, o Sr imagine o aparato precário que temos pra ser atendidos nas UPAS, pois até médicos faltam, ou seja, não tem.
Eu e meus filhos enterramos meu esposo e pai deles no dia 06/07/2021. Essas histórias se repetiram mais de 500 mil vezes, Lula! Agora, o Sr. junte a isso tudo quem perdeu o emprego e não pode pagar o aluguel. Prá onde tu acha que essa gente vai? São mais de 14 milhões de brasileiros sem trabalho e, certamente, se colocando em risco de moradia, além da ” fila do osso”, do pacote de arroz custar 30,00, do litro de óleo chegar a 8,00.
O Sr já viu o preço da carne? E aí, onde o Sr acha que a gente vai parar? Aí, nós como petistas, cientes da importância da reforma agrária prá combater tudo isso estamos sendo cassados, perseguidos, sem nenhum instrumento prá nos defendermos. Não dá prá esperar o Sr. se eleger, prá ai acontecer algo nessa direção, pois a perseguição é hoje é agora. Como vamos combater a ação desse tipo de comitê qgue foi instalado aqui em Piraquara? Além disso, a PL que proibia as ações de despejo foi anulada pelo Bolsonaro. A pandemia não acabou e as sequelas dela vão ficar por anos e, sendo assim, nossos movimentos e militantes que agem nesse sentido de organizar e ocupar áreas, vão sempre estar em risco. Minha pergunta é: por que não vemos nossos deputados e senadores, além do STF, agindo pra nos proteger já que a terra é pra quem planta, um direito e, por isso, a ocupação é legítima. O Sr e todo o aparato disponível deveriam estar atentos a isso,e não somente ficarem a fazer a campanha prá elegê-lo, enquanto os companheiros tem sua liberdade ameaçada. Pense nisso! Ajam logo, pois Quem pode estender a mão pra nois? Eu conto pro Sr., sabe, quem fez mutirão e plantou comida pra distribuir marmitas aqui no Centro de Curitiba pra moradores de Rua foi o MST! É isso mesmo! Aquele povo que é chamado de bandido, de vagabundo de invasores, essas pessoas plantam e cozinham pra distribui comida a quem nada tem. Esse MST, que tem os companheiros e companheiras perseguidos e mortos, eles ajuntaram toneladas e mais toneladas de mandioca,feijão, arroz, fruta, verdura, leite em ações de solidariedade, porque isso é comida de verdade, isso é comida que mata a fome da nossa gente, não a soja do agro-negócio, que gera lucro prá 3 ou 4 ricos, que concentram tudo nas mãos deles. Esse povo do MST tá desde o início do decreto mundial de pandemia doando alimento, eles não pararam. O Sr viu alguma ação do agro-negócio pra combater a fome?.. Então, Presidente Lula, o motivo da minha carta pro Sr. é pra dizer que nós estamos cansados de ser pisoteados enganados. Também prá dizer pro Sr tomar cuidado com os acertos e alianças políticas e que o Sr não se esqueça de que tem uma multidão de sem-terra, de sem-teto, de sem comida, que não está podendo mais esperar. Nós não vamos mais aceitar que o partido dos trabalhadores não faça um governo para os trabalhadores. Nós queremos a reforma agrária e urbana, nós queremos a anulação da reforma da previdência e que seja feito um novo texto onde não se tire os direitos dos trabalhadores, Nós queremos o nosso país de volta! Nós queremos comer presidente Lula.. Agradeço de todo meu coração sua atenção e espero que o Sr. não jogue minha carta no fundo de uma gaveta; que o Sr. leve ela contigo ao Palácio do Planalto, no dia 01/01/2023, quando o Sr. for empossado Presidente do Brasil com o meu voto, que irá se juntar a outros tantos, e se tornando milhões que desejam ter o Sr como nosso Presidente. E a,i de vez em quando, se o Sr. esquecer o que nós, os trabalhadores precisamos, é só o Sr. dar uma espiadinha na carta, no que tá escrito aí. Fique com Deus presidente Lula.

Ediane D.Tibes

Lula Livre? Lula esta realmente Livre?

No mês de abril existem três datas ligadas a luta contra a perseguição politica. O primeiro de abril, que foi a data do golpe militar de 1964, o dia 10 de abril de 2006 quando foi assassinado, na Baixada Fluminense-RJ, o presidente do sindicato dos Frios do RJ, o companheiro Anderson Luis Souza Santos e no dia 7 de abril de 2018, presidente Lula foi preso nos marcos da operação Lava jato.

Pretendemos nesse texto retomar a discussão aberta no texto no em O Partisano(O que fazer para defender a militancia da perseguição politica?, onde foi discutido alguns exemplos de iniciativas de combate a perseguição politica, a versão ebook desta revista também foi lançada com a intenção de arrecadar para um fundo de auto-defesa dos militantes, um fundo que pudesse ser acessado e patrocinasse a defesa de militantes perseguidos. O problema da perseguição apareceu também em textos da tribuna livre da luta de classes, embora sem uma devida sistematização. Tentamos retomar este tema neste texto. Retomamos então a elaboração acerca do problema da perseguição politica e os limites de atuação das organizações dos trabalhadores nos marcos do Estado burguês.

O assassinato de Anderson Luis

A morte do camarada Anderson foi um das enumeras mortes de de lideranças populares durante os mandatos do PT, algumas dessas mortes foram relatadas no livro Plantados no Chão. Esses assassinatos são a prova da falha das direções do PT em defender sua base militante e, ao mesmo tempo, uma inequívoca demonstração da adaptação da direção do partido as instituições da republica, que reprimem e legitimam a repressão contra os trabalhadores. Repressão que nunca teve seu aparelho desmontado, ver aqui a criação da comissão da verdade, que teve sua atuação sabotada de todas as formas. Porem, essa perseguição não ficaria restrita a base, entre 2006 e 2018 vimos uma escalada de perseguição ao PT, até alcançar as lideranças mais importantes do partido, essa escalada de perseguição contra o partido crescia a cada ano, no mesmo passo que crescia a marcha da decomposição do modo de produção capitalista em escala planetária, obrigando as diversas burguesias a aumentarem cada vez mais o nível de exploração dos trabalhadores, a ponto de exigirem que as organizações dos trabalhadores legitimassem a ação dos perseguidores e isso não apenas no Brasil.

A consequência da repressão ao movimento operário em todo o planeta

O gráfico abaixo, repercutido pelo blog As Novidades de Sempre, mostra a impressionante queda no numero de greves nas economias mais importantes do Mundo.

Fonte Primaria aqui

Alguns comentários acerca do gráfico, quando olhamos para o ano de 1912, pouco antes da primeira guerra, período entre 1925 e 1926, período também anterior a segunda guerra, vemos os menores números de greves pelo mundo, o que indica que uma guerra é antecedida pela derrota do movimento operário. No pós guerra uma verdadeira explosão de greves, que coincide inclusive com as previsões de Leon Trotsky , quanto à eminencia da revolução no imediato pós guerra.

O mundo capitalista já não tem saída, a menos que se considere saída a uma agonia prolongada. É necessário preparar-se para longos anos, senão décadas, de guerras, insurreições, breves intervalos de trégua, novas guerras e novas insurreições. Um partido revolucionário jovem tem que apoiar-se nesta perspectiva. A história lhe dará suficientes oportunidades de provar-se, acumular experiência e amadurecer. Quanto mais rapidamente se unifique a vanguarda mais breve será a etapa das convulsões sangrentas, menor a destruição que sofrerá nosso planeta. Mas o grande problema histórico não se resolverá de, nenhuma maneira, até que um partido revolucionário se ponha à frente do proletariado. O problema dos ritmos e dos intervalos é de enorme importância, mas não altera a perspectiva histórica geral nem a orientação da nossa política. A conclusão é simples: há que se levar adiante a tarefa de organizar e educar a vanguarda proletária com uma energia multiplicada por dez. Este é precisamente o objetivo da Quarta Internacional.

https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1940/05/manifesto.htm

O numero de greves estaciona em um patamar alto por toda a década de 1950, tem nova alta na década de 1960, estabelecendo um novo patamar, ainda mais alto que da década anterior. Um novo pico é detectado em 1978, após isso, vemos uma enorme queda no numero de greves no Mundo. Apesar da queda do numero de greves no mundo, a situação econômica da maioria dos trabalhadores não melhorou(v aqui), ao contrario, piorou muito, logo as direções sindicais passaram a aceitar condições de trabalho que antes não aceitavam. Esses dados são referentes aos países mais avançados do capitalismo. Países, autoproclamados democráticos, portanto, onde a repressão ao movimento sindical e operário não é aberta, ou seja, onde formalmente não existe perseguição politica. Na verdade, os dados também poderiam ser estendidos a revoluções, a ultima revolução popular de que temos noticia é a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974. Depois disso, um absoluto silencio conivente das direções sindicais, uma incapacidade profunda de mobilizar os trabalhadores e uma tremenda repressão ao movimento de uma forma bastante mais sutil do que a forma convencional. Embora, ninguém esperasse que o status quo do modo de produção capitalista assumisse abertamente a repressão contra os trabalhadores, como faz um vilão de filmes infantis. Na verdade consideramos que a situação é mais parecida com o que definiu Leon Trotsky:

No decurso de várias dezenas de anos os operários construíram no interior da democracia burguesa, utilizando – e, ao mesmo tempo, lutando contra ela – seus bastiões, suas bases, seus focos de democracia proletária: os sindicatos, os partidos, os clubes de formação, as organizações desportiva, as cooperativas, etc.

Contudo, a atuação destes bastiões de democracia proletaria no interior da sociedade capitalista ocorre dentro das normas e regras estabelecidos pela burguesia. O que leva Trotsky a constatar:

O fato de que a passagem da democracia para o fascismo possa ter um caráter ‘orgânico’  ou ‘progressista’ (Nota de C&R: aqui eles quis dizer que a passagem entre democracia e fascismo pode ser contínua e coerente; portanto, progressiva e não progressista) não significa evidentemente nada de diferente, a não ser que seja impossível retirar ao proletariado, sem perturbações nem combate, não somente as suas conquistas materiais – um certo nível de vida, uma legislação social, direitos cívicos e políticos – mas também o instrumento principal dessas conquistas; isto é, suas organizações. Assim, essa passagem ‘a frio’ para o fascismo pressupõe a mais terrível capitulação política do proletariado que se possa imaginar.

Os dados do gráfico acima mostram que o Estado burguês tem sido bastante bem sucedido em conter o movimento operário no mundo todo e por um longo período, poderíamos falar então que estamos diante da mais terrivel das capitulações em escala planetária?

A situação brasileira foi repercutida em particular aqui.

Lula prisioneiro dàs imposições da burguesia

É nos marcos dessa repressão ao movimento operário, que Lula é preso em 7 de abril de 2018. Tratava-se do ponto mais alto de uma escalada de perseguição, que como discutimos aqui, repetimos, uma escalada de perseguição que partiu da base petista, essa sempre perseguida , até os seu mais importante dirigente.

Por ocasião dos 4 anos da prisão de Lula, o PT no Senado emitiu um comunicado onde diz:

Os últimos anos da conjuntura política no Brasil possuem dias marcantes e portadores de simbologia para interpretar o conjunto de fatos. O estudo da História do país a ser feito pelas gerações vindouras certamente não ocorrerá sem discorrer sobre o dia 7 de abril de 2018, em que a Lava Jato atingiu seu ápice e executou o mandado de prisão daquele que representava o coroamento público de sucesso da operação em seu marketing de se vender como instrumento de combate à corrupção.

Após anos fazendo a sociedade crer estarem passando o país a limpo, com o apoio da imprensa empresarial e do establishment, Sérgio Moro e o conjunto de procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal em Curitiba cumpriram o objetivo de sua maior obsessão.

https://ptnosenado.org.br/4-anos-da-prisao-de-lula-lembrar-para-que-nao-se-repita/

trecho irrefutavel, foi exatamente isso que aconteceu, porem, na sequencia podemos ler:

Contudo, a prisão do ex-presidente Lula, como quase tudo que o cerca, fugiu do script escrito por seus algozes. Não houve um líder humilhado, algemado, rendido. Ao oposto, Lula foi “entregue” aos carcereiros por milhares de militantes que se aglomeraram em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), durante os três dias que antecederam sua condução a Curitiba para ocupar uma cela no complexo da Polícia Federal.

https://ptnosenado.org.br/4-anos-da-prisao-de-lula-lembrar-para-que-nao-se-repita/

Esse trecho é puro e simples revisionismo histórico, em momento algum os militantes presentes em São Bernardo Campo entregaram Lula, ao contrario, os trabalhadores reunidos do lado de fora do Sindicato dos Metalúrgicos queriam resistir. Parece que o PT no senado tenta esconder essa disposição de luta de sua base politica, para melhor legitimar suas posições equivocadas e tentar passar a ideia de que o golpe de Estado acabou, quando os golpistas continuam cerceando as posições do partido e cobrando mais e mais profissões de fé no marco daquilo que eles chamam Estado democrático de direito. Estado que não foi capaz, nem ao menos, de garantir a defesa do povo contra o virus da covid-19. Neste sentido, a escalada da perseguição continua. Agora de uma forma menos aberta, muito mais disfarçada. Como preconizou Kristalina Georgieva no Forum Mundial de Davos ha dois anos (ver aqui Davos e o Dificil Equilibrio do Sistema).

o agravamento do mal-estar social em muitos países —devido em alguns casos à deterioração da confiança nas instituições tradicionais e a falta de representação nas estruturas de governo— poderia abalar a atividade [econômica], complicar as iniciativas de reforma e prejudicar a atitude, o que faria o crescimento diminuir para aquém do projetado

https://cienciaerevolucao.blogspot.com/2020/02/davos-fmi-e-o-dificil-equilibro-do.html

Mais uma vez o Altermundialismo

A situação teve um tremendo agravamento, as economias do Mundo carecem de uma destruição maciça de “ativos” , ou melhor, uma destruição intensa de empresas, empregos e maquinario, em uma palavra, uma destruição ainda mais intensa de forças produtivas (ver aqui, aqui e aqui), o que obriga a burguesia a colocar a hipótese de , mais uma vez, contar com Lula e o PT como muralha de contenção contra as reivindicações populares e, ao que parece, Lula e o PT têm feito máximos esforços para corresponderem a este chamado dos patrões.

O informativo Voz Operária percebeu com precisão o papel do Vaticano nos acontecimentos que envolveram a prisão de Lula.

No dia 06 de abril, dia que Moro determinou para Lula se entregar, a militância já se encontrava em milhares rodeando o sindicato e disposta a tudo para Lula não ser preso. Aquele episódio poderia ter criado um ponto de inflexão ao golpe e derrubado uma decisão ilegal da operação criminosa Lava-Jato. Gleisi, na condição de Presidente do Partido, dizia à imprensa que Lula não ia se entregar e iria ficar com a militância. Naquela data, se debatia se Lula aceitaria a decisão arbitraria da Lava-Jato ou se ficaria na Sindicato em vigília com a militância, que estava vindo de todo o país. Nesse mesmo dia, chegou à sede do sindicato uma delegação de bispos, que defendiam que Lula se entregasse para “evitar um derramamento de sangue”, na palavras deles na época.

Como desdobramento das conversas entre a direção do PT e a Igreja, foi convocada para o dia seguinte, dia 07 de abril, sábado, um ato ecumênico com uma missa em memória da ex-primeira dama Marisa Letícia, falecida por culpa da Lava-Jato, onde participaram Lula e diversas lideranças do campo de esquerda e da Igreja Católica.

O bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino, celebrou uma missa em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, aconselhando publicamente Lula se entregar e não arriscar sua saúde. Ele no papel de emissário do Vaticano, apesar de não declarar isso oficialmente, mas que os fatos históricos posteriores comprovam isso, disse: “Não é que nos (Igreja) queremos, não é que muita gente no exterior quer (Vaticano), mas… Lula, você precisa cuidar da sua saúde”.

https://vozoperariarj.com/2022/03/09/reciclagem-do-neoliberalismo-e-o-vaticano-no-golpe-de-estado-de-2016/

O mesmo Jornal Voz Operaria relata o anticomunismo de Leonardo Boff, o mesmo Leonardo Boff que é um antigo entusiasta do Fórum Social Mundial e da democracia participativa, onde reúnem-se um amontoado de Organizações Não Governamentais sustentadas por mega fundações, como apurou o portal Viomundo, ligadas a bilionários como George Soros, Bill Gates e etc.

O Altermundialismo e a doutrina Social da Igreja

O Altermundialismo deita suas origens teoricas na doutrina Social da Igreja Católica, resenhada aqui pela falecida revista Ciência & Revolução. Podemos ler na enciclica Rerum Novarum enciclica papal que deu origem a doutrina social da igreja

Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar aos Municípios ou ao Estado. Mediante essa transladação das propriedades e essa igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam aos cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática

https://cienciaerevolucao.blogspot.com/2020/06/antipetismo-versao-brasileira-do_86.html

Não seria justamente isso que propõem o Altermundialismo, não seria exatamente uma combate para impossibilitar os trabalhadores de contarem com suas próprias organizações, independentes dos patrões, destacando aqui a independência financeira, vejamos mais um trecho

O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos.

Justamente a enciclica rerum novarum quem estabelece o conceito de sociedade civil na doutrina social da igreja, uma sociedade onde os conflitos são negados, onde não há contradições essenciais, mas sim a obediência ao julgo patronal e a aliança capital-trabalho. Portanto, a intromissão da igreja na campanha Lula e nos acontecimentos da luta de classes são ainda mais profundos , do que tão bem diagnosticou o jornal Voz Operária.

Impedir que os trabalhadores combatam por suas reivindicações e aceitem condições cada vez piores de trabalho

Como vemos o resultado da adesão das lideranças operarias a doutrina social da igreja tem sido muito efetivo em afastar as direções das organizações dos trabalhadores de suas bases sociais. Por certo a ausência de um balanço da campanha Lula-Livre e de um balanço da luta contra o golpe de Estado em geral, demostram o quanto as direções querem passar para debaixo do pano a luta contra o golpe, reduzindo esta luta a um combate contra Bolsonaro, que é apresentado como um fato sem causa, ou resultado da ignorância do povo trabalhador, como repercutimos aqui.

Uma vez mais a perseguição Politica

Como podemos ver, a perseguição politica é capaz de tomar formas bem disfarçadas, porem a independência das organizações dos trabalhadores , em particular a independência financeira , é uma condição necessária , porem não suficiente para a manutenção do combate contra o imperialismo. Nos fatos, um necessário balanço da campanha da liberdade de Lula e, de suas consequências, precisa ser estabelecido, antes que a memoria desta campanha venha a ser distorcida pelos agentes do imperialismo e as lições para a luta contra a perseguição politica não possam ser apreendidas pelos trabalhadores.

O encerramento deste texto, não poderia deixar de citar um trecho da carta da companheira Ediane ao presidente Lula:

O Sr viu alguma ação do agro-negócio pra combater a fome?.. Então, Presidente Lula, o motivo da minha carta pro Sr. é pra dizer que nós estamos cansados de ser pisoteados enganados. Também prá dizer pro Sr tomar cuidado com os acertos e alianças políticas e que o Sr não se esqueça de que tem uma multidão de sem-terra, de sem-teto, de sem comida, que não está podendo mais esperar. Nós não vamos mais aceitar que o partido dos trabalhadores não faça um governo para os trabalhadores. Nós queremos a reforma agrária e urbana, nós queremos a anulação da reforma da previdência e que seja feito um novo texto onde não se tire os direitos dos trabalhadores, Nós queremos o nosso país de volta! Nós queremos comer presidente Lula.. 

Por uma Campanha Despejo Zero de rua e de massas!-Gabriel Araujo

Apresentação

O Camarada Gabriel Araújo, dirigente do Movimento Nacional de Luta por Moradia, contribui com mais um texto em nossa tribuna livre da Luta de Classes. Desta vez Gabriel colabora com a reflexão sobre o problema das ilusões constitucionalistas, por nós discutida em uma resenha de uma coletânea de textos de Vladimir Lenin . Gabriel aborda a crise das instituições da republica demonstrando concretamente a incapacidade destas instituições de defenderem o povo trabalhador do virus da covid-19 e ainda, inicia uma discussão sobre a viabilidade da ação nessas instâncias.

Por uma Campanha Despejo Zero de rua e de massas!

Gabriel Araújo

O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, no dia 01 de dezembro de 2021, concedeu uma Tutela Provisória Incidental que prorroga até o dia 31 de março de 2022 os efeitos do ADPF 828/2020 e da Lei nº 14.216/2021, que tratam da proibição de determinados casos de despejo.

Havia uma determinação desde o dia 03 de junho de 2021, quando Barroso deferiu o ADPF 828, para que alguns despejos fossem proibidos enquanto a pandemia continuasse (nos cálculos do judiciário, sem nenhuma fundamentação científica, previam que a pandemia duraria apenas até o dia 03 de dezembro de 2021).

A Campanha Despejo Zero calcula que a medida evitou o despejo, o avanço processual jurídico e administrativo, de aproximadamente 64 mil famílias. A medida valia para as ocupações e locais de geração de renda para famílias pobres, em áreas e imóveis, públicos e privados.

Em relação as ocupações, a medida em tese, deveria abarcar aquelas que foram constituídas até o dia 20 de março de 2020. A mesma também deveria valer para estabelecimentos comerciais e imóveis alugados, com valores respectivamente iguais ou inferiores à R$1.200,00 e R$600,00.

Até o mês de junho de 2021, segundo a Campanha Despejo Zero, haviam 14.301 famílias que tinham sido despejadas desde março de 2020, um período de 1 ano e 3 meses. À grosso modo, durante esses 453 dias, foram despejadas uma média de 31,5 famílias por dia. Desde o dia 03 de junho, se passaram 183 dias e 9.199 famílias foram despejadas, o que dá uma média de 50,5 famílias despejadas por dia.

O que se pode observar, é que se burocraticamente algumas famílias tiveram seu despejo postergado, outras milhares não tiveram o mesmo destino. Pode-se constatar, inclusive, que com a medida, o que ocorreu foi um processo de intensificação dos despejos diários.

Nesse sentido, o podemos verificar que o fetichismo da norma é uma manobra para iludir e apaziguar a luta dos trabalhadores sem-teto. Pois o que em tese deveria dar uma segurança jurídica, na realidade apenas acoberta uma realidade cruel por detrás, criando uma ilusão de que os despejos vão ser estancados, quando o que se observa é a elevação dos despejos das famílias que saí de 31,5 por dia para 50,5.

Estima-se hoje que mais de 123 mil famílias se encontram em risco de despejo, o que dá mais ou menos 400 mil trabalhadores, crianças, idosos, pessoas com deficiência e doentes.

Os números de pessoas em situação de rua tem aumentado intensamente, assim como o de pessoas que estão passando fome. O aluguel, em grande parte do país, tem abocanhado quase 60% do salário do trabalhador. O desemprego a cada dia cresce mais.

A situação de sobrevivência da classe trabalhadora brasileira está cada vez mais insustentável, e os ataques, mesmo diante da terrível pandemia que levou mais de 600 mil brasileiros, não tem pausado um dia sequer.

O Movimento Popular Urbano e os demais segmentos da esquerda, não podem aceitar calados tamanha brutalidade e tampouco realizar apenas medidas proforma, que não obtém êxitos efetivos e que não deem respostas concretas para os problemas acima mencionados.

Também não podem fomentar a ilusão de que a eleição de Lula já é algo dado e que devemos esperar 2023. O povo está perecendo nesse exato momento, e é tarefa de sua vanguarda, sanar essa problemática, aqui e agora!

A única via para solucionar tal questão de uma vez por todas, é a mobilização e organização do próprio povo trabalhador, em ações de rua e de massas, que coloquem na ordem do dia, o imediato atendimento das reivindicações dos trabalhadores!

Tribuna do Movimento: Vitória da Campanha Despejo Zero: importante passo para a política habitacional que os trabalhadores querem

Reproduzimos matéria de Gabriel Araujo no Tribuna do Movimento, orgão do Movimento Nacional de Luta Por Moradia. Esta matéria é continuidade da entrevista concedida por Gabriel, aqui na revista.

Vitória da Campanha Despejo Zero: importante passo para a política habitacional que os trabalhadores querem

Gabriel Araújo

No dia 30 de março de 2022, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu os efeitos do ADPF 828/2021, que proíbe determinados despejos durante a pandemia de covid-19. A medida perderia seus efeitos no 31/03/2022, e com a decisão do magistrado, passa a valer até o final de junho de 2022.

Essa decisão de Barroso, não ocorreu porque o coração do ministro foi tocado. Ela foi fruto de um amplo processo de mobilização e trabalho coletivo de diversas organizações populares que tomaram as ruas do país, para pressionar o STF golpista.

Barroso e os ministros do STF, sabem muito bem que existe uma tendência explosiva no país, por conta da destruição da economia e do regime político. Em seu despacho, o ministro salientou que os organismos de repressão do Estado, devem elaborar uma metodologia para proceder com os despejos após o fim dos efeitos da medida, com o objetivo de que a questão não se torne uma crise humanitária. Ou seja, com o objetivo de amenizar o processo de revide do povo contra o fim da política habitacional e a destruição do país com as medidas neoliberais do golpe.

O ministro também destacou que essa será a última vez que irá prorrogar a medida, mostrando de que lado realmente ele se encontra nessa situação, que é ao lado da burguesia e da especulação imobiliária, ao lado do golpe e do fim da política habitacional. Nitidamente, Barroso e o STF, ao destacarem essa questão e ao jogar a batata quente no colo do Congresso Nacional, tenta desresponsabilizar a suprema de intervir na situação habitacional no país. Como não pedimos favores e tampouco devemos algo para o ministro golpista, a Campanha Despejo Zero, os movimentos populares e partidos de esquerda, devem dar prosseguimento na pressão sobre a ilegítima suprema corte, assim como deve o fazer em relação ao parlamento, para que este aprove uma legislação igual ou mais ampla que a antiga Lei Nº 14.216/2021, que proibia despejos urbanos durante a pandemia.

Para além disso, ainda no parlamento, é necessário que seja feito um processo de mobilização entorno de uma política habitacional que enfrente o déficit habitacional, com programas de moradia popular e urbanização, com robusto orçamento e controle popular sobre a questão.

Obviamente que tal avanço, não vai se dar à frio, sem um grande processo de mobilização e enfrentamento, ao conjunto do regime político golpista. Nesse sentido, as sucessivas vitórias, apesar de momentâneas, devem servir de estimulo para que a luta continue avançando, até que todas as nossas reinvindicações sejam completamente atendidas.

Brasil Sem Despejo!

Abaixo o golpe!

Lula Presidente!

Assine a Tribuna do Movimento, fortaleça a luta dos trabalhadores e trabalhadoras sem-teto!

PIX: tribunadomovimento@gmail.com

Inessa Armand: As eleições e a classe trabalhadora

A companheira Inessa Armand nos honra com essa contribuição à tribuna livre da luta de classe. As reflexões de Armand ocorrem justamente no aniversario do golpe de 64, quando a ditadura implantou um regime de exceção que durou 21 anos, um regime cuja a única função era perseguir os trabalhadores e o resultado foi uma baixa histórica do salario minimo

A luta dos trabalhadores para acabar com a ditadura militar foi usurpada pelos 300 picaretas com anel de doutor , porem em contrapardida as direções das organizações que nasceram desta luta, hoje parecem querer nega-la. Essas direções vendem hoje aquilo que Lenin chamava de ilusões constitucionalistas, que discutimos teoricamente na resenha da brochura de mesmo nome. Inessa Armand confronta as ilusões constitucionalistas, assim como Ediane Tibes, Gabriel Araujo e Lulu Telles, todos , cada um a sua maneira confronta as ilusões constitucionalistas na pratica. No dia a dia de cada trabalhador, que se choca com as intituições da republica, incapazes de protege-los do vírus da covid, de garantir um minimo de segurança a vida de cada trabalhador, embora, em nome desta mesma segurança , essas instituições estejam cada dia mais armadas para reprimir o povo trabalhador, como fez o TRT do Rio na recente greve dos garis. Neste cenário confuso, diante da crise cada dia mais aguda do capitalismo e da incapacidade cada dia mais fragrante das organizações dos trabalhadores de resistirem a perseguição e a repressão patronal, que Inessa Armand se choca com as ilusões constitucionalistas.

As eleições e a classe trabalhadora

Por: Inessa Armand

Estamos em 2022, ano eleitoral onde serão definidos os presidentes, governadores, deputados e senadores. A grande pergunta que circula no momento é em quem se vai votar ou simplesmente se faz uma campanha aberta ao candidato de preferência. Os questionamentos que deveriam ser realizados pelo campo da esquerda, na realidade, simplesmente são ignorados. Estamos sendo governados sob um golpe de Estado. As eleições serão limpas? Quais as implicações caso haja a vitória do campo progressista? 

O processo eleitoral, comandado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), defendidos estranhamente com unhas e dentes pela esquerda brasileira, nunca promoveu eleições minimamente democráticas no Brasil. Podemos apontar a diferença absurda no tempo de propaganda eleitoral nas rádios e TV, onde principalmente a direita possui o maior tempo de propaganda eleitoral, enquanto que partidos de esquerda que defendem pautas trabalhistas possuem minutos e sequer conseguem apresentar suas propostas e visões políticas. Além do mais, os meios de comunicação (TVs, jornais, revistas, internet) agem de forma criminosa atacando com notícias falsas os candidatos que desagradam os capitalistas. Não bastasse isso, o TSE muda constantemente as regras eleitorais no intuito de prejudicar e dificultar as candidaturas de esquerda, como por exemplo, permitindo as campanhas eleitorais apenas nas proximidades do dia das eleições, propositadamente dificultando as campanhas. 

Em 2018, as eleições foram orquestradas sob um golpe de Estado.  Numa clara ação de eleger Bolsonaro, prenderam o ex-presidente Lula e impediram a sua candidatura. Além disso, proibiram qualquer imagem dele na campanha eleitoral do seu substituto, Fernando Haddad.

Em 2022, novamente, a esquerda age como se nada houvesse acontecido, como se Lula fosse ganhar e pudesse governar normalmente. Como se o golpe fosse algo passado, como se o imperialismo não estivesse exercendo suas forças sobre o nosso país, ainda mais com a questão da ocupação da Ucrânia pela Rússia, o que resultará num cerco ainda maior do imperialismo sobre a América Latina. Não busca fortalecer a candidatura do Lula através das bases, ao contrário, tenta por meio de alianças com a burguesia, como o caso do Geraldo Alckmin, o que desmoraliza a própria candidatura e toda a denuncia contra o golpe. Afinal, ele também teve relevante participação no golpe contra a Dilma Rousseff. 

Além disso, não há uma denúncia sequer sobre as federações partidárias, pior, parece haver aceitação e apoio por parte da esquerda, que fará com que partidos da classe trabalhadora se unam a partidos burgueses tendo toda a sua política, então, engessada. Como retomar o petróleo ou reverter a reforma trabalhista em uma federação com a burguesia e sem apoio popular? Já é difícil compreender a atual sabotagem das direções das organizações populares em relação as greves, mas, com esta política, qualquer tipo de articulação torna-se impossível porque não haverá autonomia política, apesar de afirmarem o contrário. 

Todos sabem que Lula é o único candidato capaz de derrotar eleitoralmente o Bolsonaro. Mas, de acordo com o rumo político adotado pelas direções partidárias, sindicais e de movimentos, rechaçam totalmente aliança com os trabalhadores, buscando alianças justamente com aqueles que colocaram o Brasil nesta situação. 

Se Lula ganhar as eleições, sem a articulação e força da base, que tipo de governante será? Um total subserviente do imperialismo? Um governante de aparência ou de fachada que não terá autonomia para aplicar sua política impedido e boicotado pela burguesia com a qual se aliou? Ou terá pouco tempo no poder visto que facilmente poderá ser substituído por seu vice “Temer”?  

Cabe então, neste momento, a conscientização da base e da militância para que exija das suas lideranças uma política de esquerda e concreta, ações que o momento exige. Do contrário, de nada adianta no poder um gigante frágil e com os pés de barro. 

O que é o imperialismo? parte 3: A Oligarquia financeira

O que caracterizava o velho capitalismo, no qual predominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias . O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capitais

Vladimir Lenin-IMperialismo Fase Superior do Capitalismo- Editora Nova Palavra (2007) pagina 73

Retomamos, após longo período, nossa serie -O que é o Imperialismo?- nas duas partes anteriores parte 1, onde enunciamos as características desta época e começamos a discussão do papel dos monopolios e na parte 2 discutimos o papel central dos bancos. Em diversos outros textos abordamos temas ligados a concepção Leninista de Imperialismo, em particular no texto acerca do suposto imperialismo Russo.

Entender o imperialismo, um verdadeiro problema de orientação

Neste texto, vamos revisitar o capítulo -O papel da oligarquia financeira- , pretendíamos na verdade , debater o tema da exportação de capitais, porem o surgimento do termo oligarquia na grande imprensa obrigou-nos a mudar nossos planos editoriais, não é a primeira vez que isso ocorre e não será a ultima. Ambos os temas, são intimamente ligados e estão em alta recentemente por conta da escalada de guerra que atinge a Europa do Leste, devido a enorme crise de desagregação do mercado mundial, a qual esta confrontada a burguesia mundial em que repercutimos aqui e aqui a necessidade que a principal burguesia imperialista têm de destruir maciçamente capitais menos rentáveis (v aqui e aqui). E essa destruição maciça, pode ocorrer por desvalorização, ou por guerra. Esse entendimento, o entendimento de que a burguesia imperialista dos EUA é a força organizada mais poderosa do planeta, sob a qual todas as outras forças do planeta estão orientadas é o entendimento fundamental. A única força capaz de mudar essa disposição de forças no tabuleiro mundial da luta de classes, é a classe operaria, que não possui um nivel organizacional a altura da burguesia imperialista dos EUA, embora seja um permanente problema, a qual a burguesia imperialista precisa o tempo todo dedicar sua atenção. Neste sentido, entender o papel das principais burguesias imperialistas é uma condição fundamental para determinar a melhor orientação para a classe operária, sem entender de onde vira o próximo ataque, quem é capaz de oferecer maiores danos a classe trabalhadora, teremos orientações desastradas, que levarão a classe operária a se submeter a níveis ainda maiores de exploração.

Este tema foi parcialmente tratado no texto 2 e na Resposta a Rodrigo Silva onde tratamos do problema da frente única anti-imperialista, que é uma linha de unidade dos trabalhadores contras o imperialismo, pautado basicamente em uma plataforma de defesa de reivindicações ligadas a soberania nacional e a autodeterminação dos povos. Temas complexos, que merecem serem tratados em espaços próprios.

Outra coisa que precisamos reafirmar, ou esclarecer, é que imperialismo é uma época , mesmo aqui na revista usamos eventualmente a palavra imperialismo em um sentido um pouco diferente, como no próprio slogan da revista “Em defesa de todos os perseguidos pelo imperialismo“, em casos como este , estamos abusando da palavra imperialismo para nos referirmos a principal burguesia imperialista, a burguesia dos EUA ou a alguma outra das três burguesias imperialistas menores(britânica, francesa e alemã), ou ainda a alguma instituição que cumpra algum papel de congregar as principais burguesias para algum interesse especifico.( exemplo: ONU, OTAN, UE ).

O Capital financeiro e a Oligarquia financeira

Este tema foi parcialmente tratado no texto 2 onde foi mostrado o gráfico abaixo

Esse gráfico mostra a hipertrofia do capital financeiro em detrimento da produção.

Em imperialismo fase superior do capitalismo Lenin comenta:

“Uma parte cada vez maior do capital industrial – escreve Hilferding – não pertence aos industriais que o utilizam. Podem dispor do capital unicamente por intermédio do banco, que representa, para eles, os proprietários desse capital. Por outro lado, o banco também se vê obrigado a fixar na indústria uma parte cada vez maior do seu capital. Graças a isto, converte-se, em proporções crescentes, em capitalista industrial. Este capital bancário – por conseguinte capital sob a forma de dinheiro -, que por esse processo se transforma de fato em capital industrial, é aquilo a que chamo capital financeiro.” “Capital financeiro é o capital que se encontra à disposição dos bancos e que os industriais utilizam.”

https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/cap3.htm

Esse curto trecho ja desmonta a acusação dirigida a Lenin, repercutida por nós aqui, que supostamente estaria dizendo que o capitalismo não precisa mais da produção, ao contrario Lenin detecta uma fusão do capital bancário com o capital industrial. Mostrando mais uma vez o erro de seus acusadores.

Continuamos com Lenin:

Concentração da produção; monopólios que resultam da mesma; fusão ou junção dos bancos com a indústria: tal é a história do aparecimento do capital financeiro e daquilo que este conceito encerra.

Acreditamos que esse trecho põe por terra, todos os argumentos que tentam atacar Lenin por tentar deslocar a produção de seu papel de gerador riqueza. Neste capitulo, mais a frente Lenin começa a explicar o conceito de parasitismo. Antes disso, Lenin critica o conceito de participação, que hoje é usado em muitas empresas, a famosa participação nos lucros:

Com efeito, a experiência demonstra que basta possuir 40% das ações para dirigir os negócios de uma sociedade anônima(4a), pois uma certa parte dos pequenos acionistas, que se encontram dispersos, não tem na prática possibilidade alguma de assistir às assembléias gerais, etc. A “democratização”, da posse das ações, de que os sofistas burgueses e os pretensos “sociais-democratas” oportunistas esperam (ou dizem que esperam) a “democratização do capital”, o aumento do papel e importância da pequena produção, etc., é na realidade um dos meios de reforçar o poder da oligarquia financeira. Por isso, entre outras coisas, nos países capitalistas mais adiantados ou mais velhos e “experimentados”, as leis autorizam a emissão de ações mais pequenas. Na Alemanha, a lei não permite ações de menos de 1000 marcos, e os magnatas financeiros do país lançam os olhos com inveja para a Inglaterra, onde a lei consente ações até 1 libra esterlina (quer dizer, 20 marcos, ou cerca de 10 rublos). Siemens, um dos industriais e “reis financeiros” mais poderosos da Alemanha, declarou em 7 de junho de 1900, no Reichtag, que “a ação de 1 libra esterlina é a base do imperialismo britânico”(5a). Este negociante tem uma concepção consideravelmente mais profunda, mais “marxista”, do que é o imperialismo do que certo escritor indecoroso que se considera fundador do marxismo russo(18) e supõe que o imperialismo é um defeito próprio de um povo determinado …

Lenin comenta aqui acerca de Kaustky , as polemicas de Lenin e Kuastky também voltarão a serem discutidas aqui no futuro

Mas o “sistema de participação” não só serve para aumentar em proporções gigantescas o poderio dos monopolistas, como, além disso, permite levar a cabo impunemente toda a espécie de negócios escuros e sujos e roubar o público, pois os dirigentes das “sociedades-mães”, formalmente, segundo a lei, não respondem pela “sociedade-filha”, que é considerada “independente” e através da qual se pode “fazer passar” tudo. Eis um exemplo tirado da revista alemã Die Bank, no seu número de Maio de 1914:

“A Sociedade Anônima de Aço para Molas, de Cassel, era considerada há uns anos como uma das empresas mais lucrativas da Alemanha. Em conseqüência da má administração, os dividendos desceram de 15 % para 0 %. Segundo se pôde comprovar depois, a administração, sem informar os acionistas, tinha feito um empréstimo de 6 milhões de marcos a uma das suas ‘sociedades-filhas’, a Hassia, cujo capital nominal era apenas de algumas centenas de milhares de marcos. Esse empréstimo, quase três vezes superior ao capital em ações da ‘sociedade-mãe’, não figurava no balanço desta: juridicamente, tal silêncio estava perfeitamente de acordo com a lei e pôde durar dois anos inteiros, pois não infringia nem um único artigo da legislação comercial. O presidente do conselho de administração, a quem nessa qualidade incumbia a responsabilidade de assinar os balanços falsos, era e continua a ser presidente da Câmara de Comércio de Cassei. Os acionistas só se inteiraram desse empréstimo à Hassia muito tempo depois, quando se verificou que o mesmo tinha sido um erro… ” (o autor deveria ter posto esta palavra entre aspas) … “e quando as ações do ‘aço para molas’, por aqueles que tinham conhecimento disto se começarem a desfazer delas, diminuíram o seu valor em aproximadamente 100 % .

Finalmente a concepção do capital financeiro como um parasita da produção começa a aparecer

O capital financeiro, concentrado em muito poucas mãos e gozando do monopólio efetivo, obtém um lucro enorme, que aumenta sem cessar com a constituição de sociedades, emissão de valores, empréstimos do Estado, etc., consolidando a dominação da oligarquia financeira e impondo a toda a sociedade um tributo em proveito dos monopolistas. Eis um dos exemplos dos métodos de “administração” dos trusts americanos, citado por Hilferding: em 1887, Havemeyer constituiu o trust do açúcar mediante a fusão de 15 pequenas companhias, cujo capital total era de 6.500.000 dólares. Mas o capital do trust, “aguado”, segundo a expressão americana, fixou-se em 50 milhões de dólares. A “recapitalização” tinha em conta de antemão os futuros lucros monopolistas, do mesmo modo que o trust do aço – também na América – tem em conta os futuros lucros monopolistas ao adquirir cada vez mais jazigos de minério de ferro. E, com efeito, o trust do açúcar fixou preços de monopólio e recebeu lucros tais que pôde pagar um dividendo de 10 % ao capital sete vezes “aguado”, quer dizer, quase 70 % sobre o capital efetivamente investido no momento da constituição do trust! Em 1909, o seu capital era de 90 milhões de dólares. Em vinte e dois anos o capital foi mais do que decuplicado.

Portanto , esse capital financeiro, existe amparado , ou melhor hospedado na produção, em na parte 2 , nós adiantamos que o capital financeiro é , hoje em dia, mais atraente do que a produção, opondo concorrência então ao seu próprio hospedeiro.

Os lucros excepcionais proporcionados pela emissão de valores, como uma das operações principais do capital financeiro, contribuem muito para o desenvolvimento e consolidação da oligarquia financeira. “No interior do país não há nenhum negócio que dê, nem aproximadamente, um lucro tão elevado como servir de intermediário para a emissão de empréstimos estrangeiros” – diz a revista alemã Die Bank

Lenin cita um exemplo que parece muito atual, a especulação imobiliária

Uma das operações particularmente lucrativas do capital financeiro é também a especulação com terrenos situados nos subúrbios das grandes cidades que crescem rapidamente. O monopólio dos bancos funde-se neste caso com o monopólio da renda da terra e com o monopólio das vias de comunicação, pois o aumento dos preços de terrenos, a possibilidade de os vender vantajosamente por parcelas, etc., dependem principalmente das boas vias de comunicação com a parte central da cidade, as quais se encontram nas mãos de grandes companhias, ligadas a esses mesmos bancos mediante o sistema de participação e da distribuição dos cargos diretivos. Resulta de tudo isso o que o autor alemão L. Eschwege, colaborador da revista Die Bank, que estudou especialmente as operações de venda e hipoteca de terrenos, qualifica de “pântano”: a desenfreada especulação com os terrenos dos subúrbios das cidades, as falências das empresas de construção, como, por exemplo, a firma berlinense Boswau & Knauer, que tinha embolsado uma quantia tão elevada como 100 milhões de marcos por intermédio do banco “mais importante e respeitável”, o Banco Alemão (Deutsche Bank), que, naturalmente, atuava segundo o sistema de “participação”, isto é, em segredo, na sombra, e livrou-se da situação perdendo “apenas” 12 milhões de marcos; depois, a ruína dos pequenos patrões e dos operários, que não recebem nem um centavo das fictícias empresas de construção; as negociatas fraudulentas com a “honrada” polícia berlinense e com a administração urbana para ganhar o controlo do serviço de informação sobre os terrenos e das autorizações do município para construir, etc., etc.(15a).

Queremos ressaltar que o Imperialismo fase superior do capitalismo, foi publicado em 1916. 90 anos antes da crise sub-prime nos EUA, muito antes do problema da especulação imobiliaria aparecer aqui no Brasil , na forma dramática que aparece hoje. Assim o papel da Oligarquia financeira é um papel parasitário, são parasitas da produção, nos próximos capitulos Lenin aprofunda essa tematica

A Oligarquia Russa

Recentemente com a guerra na Ucrania o termo Oligarquia Russa começou a ser ventilado na grande imprensa v aqui , inclusive com uma serie de sanções contra estes oligarcas, que possuem bens nos países imperialistas, os países imperialistas de verdade, não os supostos. A CNN Explica o aparecimento da Oligarquia Russa :

Yeltsin decidiu transformar a economia socialista russa em economia de mercado e assim o fez com programas de privatização e liberalização da economia, numa autêntica terapia de choque.

O seu opositor Alexander Rutskoi insuflou uma insurreição contra a forma como Yeltsin estava conduzindo o processo de reformas, até mesmo o chamando de “genocídio econômico”.

É com as reformas de Yeltsin que surge a nova oligarquia. Agora já não é o partido, nem o Politburo, quem irá deter o poder, mas sim um grupo restrito de pessoas que vão aproveitar da situação para se apoderar de grande parcela da riqueza nacional.

Essas pessoas constituem a nova oligarquia russa. Tornam-se milionárias através de situações pouco claras. Aliás, a época de Yeltsin é marcada por uma corrupção generalizada, inflação, colapso econômico e profundos problemas sociopolíticos.

assim, hoje a oligarquia Russa, surge da restauração do capitalismo no Leste Europeu, restauração, que nós também já debatemos aqui e aqui . E que foi amplamente saudada pelo dito Ocidente. Alias, a Oligarquia Russa concentra uma das principais características do parasitismo capitalista. Que é a necessidade que os capitalistas têm de infligirem as leis que foram criadas nos próprios parlamentos burgueses, pois muitas dessas leis foram criadas por pressão ou concessão à classe trabalhadora organizada. Constituindo, portanto, uma verdadeira barreira para a realização da taxa de lucro destes capitalistas. Neste sentido, a destruição de nações inteiras como a Iuguslavia, o Iraque e o Afeganistão, são os casos mais avançados da necessidade da burguesia de eliminar essas barreiras aos seus lucros. Voltaremos a este ponto quando tratarmos do parasitismo capitalista em especifico.

Ucrânia-Rússia: como um terremoto(Tradução)

Apresentação:

Apresentamos abaixo mais um texto traduzido do blog “The Next Recession” do economista britanico Michael Roberts. Neste texto Michael Roberts apresenta as consequências do conflito entre Ucrania e Russia para a economia mundial. Os dados apresentados por Roberts corroboraram nossa posição, apresentada aqui e compartilhada pelo informativo Voz Operaria, acerca do suposto imperialismo Russo levantado por figuras como Yuval Harari e por muitas personalidades como Lula e Jean Luc-Melechon (candidato a presidente na França pelo agrupamento França Insubmissa )que disse em um comicio de campanha :

Nós trazemos uma mensagem neste instante: fim da guerra! Fim da invasão da Ucrânia! Abaixo o exército que invadiu a Ucrânia! Trazemos uma mensagem de solidariedade aos ucranianos (…). Dirigimos uma mensagem de solidariedade e de amor aos russos, ao povo russo que recusa a guerra e se opõe a ela corajosamente”.

https://otrabalho.org.br/a-guerra-e-as-eleicoes/

Lula e Melechon, dois recentes perseguidos politicos pelo imperialismo, mascaram sua posição pró imperialista por trás de um pacifismo hipócrita, como vemos ambos colocam a ação de Putin no mesmo patamar das ações da OTAN e em momento algum chamam a extinção dessa maquina de guerra contra os povos de todo o planeta. Escondem que não pode existir autodeterminação dos povos enquanto existir OTAN.

O imperialismo é a destruição das nações

Como esquecer a ação da OTAN na ex-Iuguslavia em 1999? Como esquecer outros conflitos pelo mundo, todos eles com participação direta do imperialismo? Como esquecer a guerra da Siria? Como esquecer que foi Emmannuel Macron, que no seu plano de gestão para a presidência rotativa da União Europeia, propos uma reforma do espaço  Schengen, que é a politica de asilo da UE? Como esquecer o papel da OTAN no Oriente Médio e a enorme criose migratória gerada? Todas essas consequências são apresentadas sem causa, mas a causa é justamente o imperialismo, a burguesia imperialista que necessita a cada dia mais destruir mercados e forças produtivas, eliminar barreiras alfandegarias e direitos escritos nos marcos nacionais para elevar a exploração do povo trabalhador a níveis nunca vistos.

Como resistir ? A frente Única Antiimperialista

A frente unica antiimperialista é a unidade dos trabalhadores contra o imperialismo, o conhecimento acumulado pela classe trabalhadora sobre esta questão encontra-se sistematizado no programa de transição-Agonia do capital e as tarefas da IV Internacional- escrito por Leon Trotsky. Nele podemos ler

A guerra imperialista é a continuação e a exacerbação da política de pilhagem da burguesia; a luta do proletariado contra a guerra é a continuação e aprofundamento de sua luta de classe. O advento da guerra muda a situação e, parcialmente, os processos de luta entre as classes, mas não muda nem seus fins, nem sua direção fundamental.

https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#12

É essa politica de exacerbação da pilhagem, que temos reportado, tanto na revista impressa, como em diversos artigos ver aqui, aqui e aqui. Trotsky constata que a burguesia é a principal força do planeta

A burguesia imperialista domina o mundo. É por isso que a próxima guerra, no que tem de fundamental, será uma guerra imperialista. O conteúdo decisivo da política do proletariado internacional será, consequentemente, a luta contra o imperialismo e sua guerra. O princípio básico desta luta será: “o inimigo principal está em nosso próprio país” ou “a derrota de nosso próprio governo (imperialista) é o mal menor”.

Recuperemos então, a derrota de nosso próprio governo imperialista, portanto a luta central, não corresponde a uma palavra de ordem direta “Não a Guerra!” Essa palavra de ordem, ainda que abstrata, pode constituir em algo progressivo nos paises imperialistas, embora dela não decorram imediatamente medidas praticas, que precisam ser melhor precisadas como a não votação do orççamento de guerra.

Contudo queremos ressaltar algumas passagens especiais

Mas nem todos os países do mundo são países imperialistas. Ao contrário; a maioria dos países são vítimas do imperialismo. 

Então Trotsky faz uma diferenciação importante entre paises imperialistas e não imperialistas, para alem de um simples dogmatismo, os dados abaixo do economista Michael Roberts denunciam o papel do imperialismo na pilhagem contra o povo, então não aprofundaremos essa discussão, pois ja fomos bastante reduntantes, mas prossigamos na discussão da posição da classe trabalhadora quanto a guerra e as diferenciações entre paises imperialistas e não imperialistas, se nos paises imperialistas a classe operaria deve dizer “Não a guerra!” Qual deve ser a posição nos países não imperialistas?

Certos países coloniais ou semicoloniais tentarão, indubitavelmente, usar a guerra para se livrar do jugo da escravidão. No que Ihes concerne, a guerra não será imperialista, mas emancipadora. O dever do proletariado internacional será ajudar os países oprimidos em guerra contra seus opressores. Este mesmo dever estende-se também à URSS ou a outro Estado operário que possa surgir antes da guerra ou durante.

Os dados econômicos são inequívocos quanto ao papel da Russia na distribuição internacional do trabalho, a Russia é um pais semicolonial, então estar ao lado da Russia, não é uma posição “putinista”. Não estar ao lado da Russia , implica em duas possibilidades, o não se reconhece a existência do imperialismo, como fase superior do capitalismo, fato que os dados economicos amparam , ou não se reconhece a Russia como semicolonial, fato também amparado pelos dados econômicos, assim Trotsky continua:

A derrota de todo governo imperialista na luta contra um Estado operário ou um país colonial é o mal menor.

Com essa introodução passamos a palavra para o camarada Michael Roberts

Ucrânia-Rússia: como um terremoto

Por Michael Roberts

“A guerra na Ucrânia é como um poderoso terremoto que terá efeitos de ondulação em toda a economia global, especialmente em países pobres”. Foi assim que a chefe do FMI, Kristalina Georgieva, descreveu o impacto da guerra na economia mundial. Ninguém pode ter certeza da magnitude deste terremoto, mas mesmo na visão mais otimista, isso vai prejudicar significativamente as economias e os meios de subsistência não apenas do povo da Ucrânia e da Rússia, mas também do resto dos 7 bilhões de pessoas em todo o mundo. E isso está acontecendo assim como a economia mundial estava supostamente se recuperando da queda na produção, renda e padrões de vida sofridos com a queda da pandemia do COVID em 2020 – que foi a contração global mais ampla e mais profunda (se relativamente curta) em mais de 100 anos.

Mas vamos começar com a própria Ucrânia. Já 3 milhões de pessoas fugiram do país das bombas e destruição de suas casas e outras 6 milhões foram deslocadas dentro do país. Como em todas as guerras, a vida e os meios de subsistência das pessoas foram perdidos. Economicamente, um relatório de pessoal do FMI, concluído em 7 de março, concluiu que o país estava paralisado. “Com milhões de ucranianos fugindo de suas casas e muitas cidades sob bombardeio, a atividade econômica comum deve, em grande parte, ser suspensa.” Depois há o dano físico. Há uma semana, o conselheiro econômico do presidente ucraniano já colocou o prejuízo em US$ 100 bilhões. Metade das exportações do país dependem do porto de Mariupol, que agora sofre o cerco mais selvagem.

A projeção provisória do FMI é que a produção caia 10% em 2022 — se a guerra não durar muito. E isso está começando a parecer otimista, como o FMI comenta: “Os riscos negativos são extremamente altos”. Este 10% se compara com um declínio da produção de 6,6% em 2014, que foi seguido por um declínio de pouco menos de 10% em 2015, durante o conflito anterior Rússia-Ucrânia no leste da Ucrânia. No entanto, o FMI alertou que “os dados sobre a contração real do PIB em tempo de guerra (Iraque, Líbano, Síria, Iêmen) sugerem que a contração anual da produção poderia eventualmente ser muito maior, na faixa de 25-35%.”

Depois há a Rússia. A invasão de Putin provocou uma resposta sem precedentes na forma de sanções econômicas e outras contra amigos e apoiadores de Putin e contra seus bancos e instituições, levando até mesmo à apreensão das reservas cambiais do país – e às crescentes tentativas de bloquear ou boicotar as exportações russas (incluindo petróleo e gás). Impedir o banco central russo de implantar suas reservas internacionais e impossibilitar a liquidação de seus ativos faz parte de uma guerra econômica destinada a minar a economia e o esforço de guerra da Rússia. O ministro francês das Finanças disse que “estão travando uma guerra econômica e financeira total contra a Rússia, Putin e seu governo”

A economia russa não é grande em comparação com as economias do G7. No total, as forças econômicas contra a Rússia equivalem a um PIB anual de US$ 50 bilhões em comparação com os insignificantes US$ 4trn da Rússia e da Bielorrússia.

E quando se trata de poder de fogo militar, a Rússia é fortemente superada pelos países da OTAN.

Assim, uma combinação de ruptura econômica, sanções dos países da OTAN e inflação em espiral vai levar a economia russa a um precipício. As previsões da contração da saída variam. O consenso coloca-o em cerca de 8% de queda este ano.

Mas o Instituto Internacional de Finanças (IIF), que analisa de perto os fluxos de exportação e importação russos, bem como os fluxos de capital, é muito mais pessimista e espera uma queda de 15% – algo não experimentado na Rússia desde o colapso da União Soviética na década de 1990 – levando a economia russa de volta aos níveis de mais de 20 anos atrás.

O uso de sanções econômicas contra um país do G20 como a Rússia é sem precedentes. Mostra o papel que as “sanções” podem desempenhar como alternativa à ação militar contra governos que não seguem os desejos e ditames do imperialismo no 21st século.

Topicamente, o historiador econômico Nicholas Mulder tinha acabado de publicar um livro intitulado, The Economic Weapon: the rise of sanctions as a tool of modern war. Mulder ressalta que as sanções econômicas começaram a ser usadas por potências imperialistas quando a Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. As principais potências da Liga “acreditavam ter equipado a organização com um novo e poderoso tipo de instrumento coercitivo para o mundo moderno”. O então presidente dos EUA, Woodrow Wilson, descreveu as sanções econômicas como “algo mais tremendo do que a guerra” que poderia trazer “uma nação aos seus sentidos, assim como a sufocamento remove do indivíduo todas as inclinações para lutar”. Não haveria necessidade de força. “É um remédio terrível. Não custa uma vida fora da nação boicotada, mas traz uma pressão sobre aquela nação que, na minha opinião, nenhuma nação moderna poderia resistir.” Nesse sentido, as sanções me lembram os cercos medievais, onde as cidades passavam fome em submissão, sem ação militar. As sanções econômicas eram um novo 20ésimo arma do século, juntamente com armas químicas e bombas nucleares.

Mulder argumenta que as sanções econômicas foram usadas primeiro pelos imperialistas europeus contra povos que viviam fora do “mundo civilizado”. Em seguida, os EUA subir para o poder global no 20ésimo século viu tanto sanções negativas (embargos de petróleo) quanto sanções positivas (Lend-Lease). “A sanção americana foi moldada por três fatores: seu domínio militar único, a inflexão ideológica da política da Guerra Fria e o papel dos mercados financeiros dos EUA na economia mundial.”

John Maynard Keynes via as sanções “positivas” como benéficas, ou seja, através de ajuda e subsídio aos mocinhos, ao mesmo tempo em que aplicava proibições, bloqueios e punições aos bandidos. E ele considerou que a sanção do sistema financeiro era a mais poderosa – e que agora está sendo colocada em prática contra a Rússia. É claro que quanto maior e mais poderoso for um país, e quanto mais fraco e menos firmemente for aplicado por uma aliança de países, menor será o seu impacto.

Mas e o impacto global do conflito? Embora a Rússia e a Ucrânia sejam relativamente pequenas em termos de produção, eles são grandes produtores e exportadores de itens alimentares importantes, minerais e energia. A Ucrânia e a Rússia juntos representam mais de um quarto do comércio global de trigo e um quinto das vendas de milho. Quanto mais tempo as forças russas permanecerem na Ucrânia, os tratores mais longos e as combinações para colher as culturas do país permanecem ociosas, ameaça a segurança alimentar muito além da região, alertou o FMI.

Por exemplo, o Egito importa 80% de seu trigo da Rússia e da Ucrânia. Com muitos países da África e do Oriente Médio sendo expostos da mesma forma, a Europa poderia em breve ter outra crise migratória em suas mãos, além de milhões de refugiados ucranianos. Em seguida, há o papel da Ucrânia no fornecimento de muitos dos raros gases necessários em processos industriais – como neon, krypton e xenônio – incluindo a produção de semicondutores já sitiada.

A energia é o principal canal de derramamento para a Europa, uma vez que a Rússia é uma fonte crítica de importação de gás natural.

Isso vai atingir a produção em toda a Europa.

O FMI considerou que “o prolongamento da agressão da Rússia à Ucrânia, além das perdas humanitárias e econômicas, também levará a efeitos significativos de repercussão em todo o mundo: deterioração da segurança alimentar, aumento do processo de energia e commodities, aumento das pressões inflacionárias, interrupção das cadeias de suprimentos, aumento dos gastos sociais para os refugiados e aumento da pobreza. Os danos econômicos globais desta guerra serão devastadores.”

Em seu relatório, a OCDE também apresentou um quadro sombrio se a guerra continuar por muito mais tempo: “o crescimento global pode ser reduzido em mais de 1 ponto percentual, e a inflação global elevada em cerca de 2,5 pontos percentuais no primeiro ano completo após o início do conflito. Essas estimativas baseiam-se no pressuposto de que os choques do mercado financeiro e das commodities vistos nas duas primeiras semanas do conflito persistem por pelo menos um ano, e incluem uma profunda recessão na Rússia, com a produção caindo mais de 10% e a inflação subindo cerca de 15 pontos percentuais.”

E se as importações de energia da Rússia caírem 20%, seja através de sanções ou contra-sanções, reduziria a produção bruta nas economias europeias em mais de 1 ponto percentual, com diferenças significativas entre os países.

Os consultores de gestão McKinsey também previram resultados desagradáveis para as economias da Europa, em particular. No cenário esperado de McKinsey, onde o fim das hostilidades está à vista até o segundo semestre de 2022 e as sanções não se estendem ao setor energético (de modo que as exportações de energia da Rússia para a Europa continuem fluindo), McKinsey calcula que o crescimento do PIB na zona do euro e na Alemanha estagnaria em 2022, mas depois se recuperaria para 2,1% em 2023 e 4,8% em 2024. Isso já é ruim o suficiente, mas se houver um conflito prolongado que intensifica a crise dos refugiados na Europa Central e onde os países ocidentais e a Rússia estendem ainda mais as sanções, levando à paralisação das exportações de petróleo e gás da Rússia para a Europa; em seguida, a zona do euro entraria em recessão em 2022 e 2023, liderada pela Alemanha.

E assim como houve uma “cicatriz” de longo prazo das economias capitalistas da Grande Recessão de 2008- e a queda pandêmica do COVID de 2020, o conflito Ucrânia-Rússia está adicionando mais danos. A ‘globalização’ (a extensão do comércio mundial e dos fluxos de capital) foi uma importante contra-tendência para as economias imperialistas à queda da rentabilidade do capital produtivo internamente nas últimas duas décadas das 20ésimo século. Mas a globalização, a expansão dos fluxos de capital imperialista e do comércio, gaguejaram nos 21st século, e sob o impacto da Grande Recessão, entrou em marcha ao contrário. A rentabilidade mundial caiu para perto dos mínimos de todos os tempos. Esta é a causa básica da intensificação das crises econômicas e dos conflitos geopolíticos nas últimas duas décadas.

E agora que esta guerra aparentemente “regional” que foi transformada em uma questão mundial, poderia alterar fundamentalmente a ordem econômica e geopolítica global à medida que o comércio de energia muda, as cadeias de suprimentos se reconfiguram, as redes de pagamento se fragmentam e os países repensam as participações em moeda de reserva. Após o período Trump, as tarifas protecionistas dos EUA contra a China, o México e a Europa, agora há esse aumento da tensão geopolítica, que aumenta ainda mais os riscos de fragmentação econômica, especialmente para o comércio e a tecnologia.

Então há dívidas. A pandemia COVID-19 coincidiu com um aumento mais rápido do endividamento das empresas. A dívida corporativa já vinha aumentando globalmente desde 2007, mas a crise pandêmica levou a um aumento ainda mais acentuado. O endividamento corporativo dos EUA aumentou 12,5% entre 2018 e 2020, muito mais do que o aumento em toda a década que antecedeu o COVID-19.

Agora, o crescimento da produção, mesmo a recessão, o investimento mais fraco e a menor rentabilidade corporativa, ao lado do aumento da inflação, ameaçam entregar falências generalizadas entre os “zumbis” corporativos e os “anjos caídos”. Isso torna os planos dos bancos centrais de aumentar as taxas de juros para controlar a aceleração da inflação, pelo menos, e impossível, no máximo. Uma análise empírica recente considera que “quando o nível da dívida corporativa é suficientemente alto, uma política monetária contracionária até aumenta a inflação”, lembrando o episódio de estagflação na década de 1970 após os “choques” do petróleo na época. O documento conclui que “nosso trabalho sugere que a política monetária não será eficaz na redução da inflação suavemente para um pouso suave. Isso significa que os bancos centrais, em última análise, têm que escolher entre gerar uma recessão, com falências significativas, ou aceitar a estagflação contínua.”

O economista “liberal” Wolf, está profundamente preocupado. “Um novo mundo está nascendo. A esperança de relações pacíficas está desaparecendo… Ninguém sabe o que vai acontecer. Mas sabemos que isso parece um desastre…A combinação de guerra, choques de oferta e alta inflação é desestabilizadora, como o mundo aprendeu na década de 1970. A instabilidade financeira agora parece muito provável, também. Uma prolongada crise de estagflação parece certa, com grandes efeitos potenciais nos mercados financeiros.” A longo prazo, o surgimento de dois blocos com profundas divisões entre eles é provável, assim como uma reversão acelerada da globalização e sacrifício dos interesses empresariais à geopolítica. Mesmo a guerra nuclear é, infelizmente, concebível.  

Wolf afirma que esta guerra é uma batalha entre as forças da “democracia” (representada pela OTAN) e as forças da “autocracia” (representada pela Rússia e pela China). Isso é um absurdo – onde a Arábia Saudita, aliada da OTAN, ou a ditadura militar no Egito, ou a autocracia da Turquia, membro da OTAN, se encaixam nessa categorização? Em vez disso, o conflito Rússia-Ucrânia expôs as crescentes contradições na economia capitalista mundial entre as potências imperialistas, por um lado, e os países que tentam resistir às políticas e à vontade do imperialismo.

O chefe do FMI, Georgieva, declarou que “vivemos em um mundo mais propenso a choques”. Sim, os choques vêm vindo grosso e rápido no 21st século. Georgieva continuou: “E precisamos da força da coletividade para lidar com os choques que virão.” Realmente! Mas não é a vontade coletiva dos poderes capitalistas que podem lidar com esses choques: eles falharam com as mudanças climáticas; sobre a prevenção e parada da pandemia COVID; e sobre o fim da pobreza e manter a paz mundial. Em vez disso, tudo dependerá da vontade coletiva dos trabalhadores organizados.

Yuval Harari: a mentira a serviço de uma ordem em colapso(Via O Partisano)

Apresentação:

Reproduzimos abaixo o texto publicado originalmente em O Partisano , por Willian Dunne, acerca da entrevista recente do historiador Yuval Harari ao programa fantastico da rede globo. Dunne analisa o papel que o historiador joga, legitimando as mentiras de guerra, dando o seu aval “cientifico”, mostrando que cientistas também possuem lado. Um exemplo concreto de obscurantismo, que tornou-se uma arma indispensável à burguesia. A dominação da burguesia não pode perpetua-se sem esconder os fatos dos trabalhadores e sem contar com uma legitimação técnica. Papel lamentavel a qual um historiador da estatura de Harari se presta, emprestar o seu prestigio acadêmico e sua reputação a causa do modo de produção capitalista em sua fase derradeira e terminal, a fase que Lenin chamou de imperialismo.

Yuval Harari: a mentira a serviço de uma ordem em colapso(Via O Partisano)

Por Willian Dunne – via O Partisano

Autor de best sellers como Sapiens e 21 lições para o século 21, o historiador israelense Yuval Harari tem desempenhado o papel de garoto propaganda da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Já há várias entrevistas de Yuval na Internet em que ele defende uma visão atlantista do conflito entre Ucrânia e Rússia. Uma visão que consiste, basicamente, em ignorar as raízes do atual embate, demonizar o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e, finalmente, mentir bastante e descaradamente.

No Brasil, Yuval apareceu em uma reportagem de 10 minutos que foi ao ar no Fantástico de domingo (6), um programa com grande alcance, perfeito para a propaganda de guerra em que a mídia hegemônica brasileira se engajou. Naquela noite, o Fantástico chegou a 20,1 pontos de audiência.

Durante a reportagem, trechos de uma entrevista de Yuval concedida a Sônia Bridi são sucedidos por imagens e textos que ilustram os argumentos do entrevistado, confirmado-os. O historiador israelense não é confrontado, mas sim apresentado como uma autoridade no assunto. É o argumento de autoridade trazido para a campanha da OTAN, para o consumo de massas no Brasil através de sua principal emissora de TV. É uma carteirada da Globo.

E o “fact checking”?

Porém, as afirmações dessa “autoridade”, que visam corroborar a versão dos EUA e da OTAN sobre o conflito, poderiam facilmente ter sido contestadas. Os milhões de espectadores da Globo ouviram por exemplo que Putin, pintado quase como um novo Hitler por Yuval Harari, estaria gastando 20% do PIB com equipamentos militares. Contudo, dados do Stockholm International Peace Research Institute, da Suécia, mostram que a Rússia gastou 4,263% de seu PIB com defesa em 2020.

Outro problema da afirmação de Harari é que mencionar o gasto do governo de Putin com Defesa não prova que o presidente russo tenha ambições imperialistas e expansionistas. Esse gasto poderia representar cautela diante da expansão da… OTAN – uma despesa defensiva. Os EUA, por exemplo, gastaram 3,741% do PIB com Defesa em 2020, menos do que a Rússia em termos de proporção do PIB. No entanto, em termos absolutos, os EUA gastaram US$778 bilhões naquele ano, enquanto os russos gastaram US$61.7 bilhões. Além disso, a soma dos gastos militares do Reino Unido, Alemanha e França é quase o triplo do que os russos gastam. Se os gastos militares por si sós provam algo, é que Putin está se defendendo de países dezenas de vezes mais hostis.

Nova era de conflitos?

Yuval Harari também apresentou a tese de que, caso Putin vença a guerra, uma nova era de conflitos estará sendo iniciada – como não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele: “Se o Putin vencer, veremos mais ‘Putins’ em muitos lugares do planeta. Veremos países imitando o russo, invadindo os vizinhos e tentando destruí-los. É do interesse de todos, no mundo inteiro, fazer o que puderem para parar essa guerra terrível”.

Essa parte da entrevista, que a Globo selecionou, cortou, e exibiu para milhões de pessoas, talvez seja o exemplo mais flagrante de falsificação da história com propósitos políticos a favor dos EUA e da OTAN. Justamente porque ignora, principalmente, o histórico de intervenções dos EUA.

Antes de falar dos EUA, lembremos que Yuval é israelense. Israel gerou uma crise de refugiados logo depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, no episódio que ficou marcado na história dos palestinos como a nakba (catástrofe), mais de 700 mil pessoas foram expulsas de suas terras, em que suas famílias viviam há gerações, durante séculos. Logo em seguida os EUA atravessaram o mundo para se meter na guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953. Depois os EUA entraram na  guerra do Vietnã (que durou de 1955 até 1975) em 1964. Em 2003, os EUA invadiram o Iraque, mataram milhões de civis e deixaram milhões de refugiados, com o pretexto de que o país teria armas de destruição em massa (que nunca foram encontradas). Atualmente, os EUA patrocinam o cerco da Arábia Saudita ao Iêmen, que, segundo estimativa da ONU do ano passado, já teria matado 377 mil pessoas. Isso para não falar em outros conflitos e intervenções dos EUA, que seria uma lista realmente longa.

Como é possível, diante desse histórico do país que lidera a OTAN e, por meio dela, estende sua presença militar por toda a Europa, afirmar que Putin estaria inaugurando uma era de conflitos? Isso só é possível graças ao volume da propaganda de guerra dos EUA. Todos os grandes canais de TV e rádio, todos os grandes jornais impressos e portais, passando por produções cinematográficas e publicação de livros, repetirão dia e noite que a Rússia invadiu outro país sem provocação porque Putin seria um ditador. Por mais que essa história parta de premissas flagrantemente mentirosas, a aposta nesse caso é no volume dessa propaganda, de proporções monumentais.

Putin nazista?

Outras duas afirmações da entrevista merecem ser apreciadas aqui. Yuval Harari diz que Putin esperava ser recebido com flores, mas que a Ucrânia resistiu. E faz uma caricatura das denúncias da presença de nazistas, quando diz que: “Putin construiu uma mentira, essa fantasia de que a Ucrânia não é uma nação de verdade, que ucranianos são russos, que querem ser absorvidos pela Rússia, e que só não conseguem porque existe uma gangue de ‘judeus nazistas’ no poder”.

A primeira afirmação é uma comparação de Putin com Hitler. O que Yuval insinua é que Putin esperava ser recebido como na anexação dos Sudetos ou da Áustria pela Alemanha nazista. É uma comparação maliciosa que faz parte da demonização do governo russo. A segunda afirmação é mais traiçoeira, porque omite o fato que há uma divisão na Ucrânia, e que há uma ala pró-Rússia, como ficou claro no referendo em que 90% da população da Crimeia escolheu fazer parte da Rússia. Além dos oito anos de guerra civil no leste do país, praticamente inexistentes para a imprensa ocidental.

Mas o conteúdo mais venenoso está no final, quando Yuval se refere a uma “gangue de judeus nazistas” ele está insinuando que, por Zelensky ser judeu, as denúncias da simbiose entre Estado ucraniano e bandos nazistas seriam falsas. O problema é que Zelensky ser judeu não anula esse fato, que tem ficado a cada dia mais evidente graças aos soldados ucranianos que colocam símbolos nazistas em seus uniformes, como o sol negro. No mundo que Yuval Harari e a Rede Globo, assim como todas as grandes TVs do ocidente, vendem para seus espectadores, a realidade é invertida: o governo russo é que estaria associado ao nazismo, já que Putin é uma espécie de Hitler, e a Ucrânia, infestada de bandos de extrema direita, seria apenas uma inocente democracia lutando por liberdade.

Medo

Outra distorção da realidade urdida por Yuval é a de que os países do leste europeu que entraram na OTAN o fizeram por medo da Rússia, e que a Rússia deu razão a todos eles ao invadir a Ucrânia. Como se a OTAN fosse uma entidade benévola, protegendo o mundo da malvada Rússia. É justamente o contrário. A OTAN é a presença militar dos EUA na Europa, apertando o cerco à Rússia de forma propositalmente ameaçadora. No parlamento ucraniano já se debatia abertamente instalar armas nucleares no país, que ficariam apontadas para a Rússia a uma curta distância. É evidente que uma potência militar como a Rússia não ficaria assistindo. Para completar o quadro, a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, admitiu durante uma audiência no Congresso norte-americano que na Ucrânia há laboratórios de armas biológicas. Ao que parece, seriam laboratórios dos EUA.

Leia também: Seis motivos para a esquerda não ir ao ato do MBL

Portanto, a alegação do governo russo de que sua operação militar tem propósitos defensivos é crível. As ameaças são palpáveis, e o avanço da OTAN já dura décadas, contrariando uma promessa feita ao governo (então) soviético no começo dos anos 90, quando o Secretário de Estado do governo Bush (pai), James Baker, garantiu a Gorbachev que a OTAN não avançaria “uma polegada” para o leste. Desde essa promessa, 15 países novos entraram na OTAN, todos ao leste.

Liberdade e democracia

Toda essa falsificação é feita supostamente em nome do “ocidente” e seus “valores”, pela “liberdade” e pela “democracia” contra governos tirânicos e incivilizados. A situação, porém, revela o que são na prática a “liberdade” e a “democracia” ocidentais. Democracia e liberdade é dar um golpe de Estado usando herdeiros políticos diretos de colaboradores nazistas, encher o Estado de nazistas e o país de laboratórios de armas biológicas. É isso o que o mundo livre ocidental tem a oferecer aos bárbaros governados por tiranos incivilizados.

O que está em jogo, evidentemente, não são valores nem liberdade ou democracia. O domínio dos EUA sobre o mundo está em crise. É o controle global dos EUA que será afetado caso os russos consigam impor aos ucranianos uma posição neutra entre a OTAN e a Rússia. Esses aspectos da crise do império são desdobramentos militares e políticos da crise do próprio capitalismo, que nunca se recuperou de 2008. É esse sistema de dominação para exploração econômica que está em colapso, e não a “liberdade e a “democracia”. É em defesa desse sistema que está desmoronando que Yuval Harari conta suas mentiras e a mídia ocidental as reproduz.

O problema da Frente Única Anti-imperialista uma Resposta a Rodrigo Silva: “A Russia é imperialista?”

A presentação:

O companheiro Rodrigo Silva em sua conta no Medium escreveu um texto recente intitulado –A Russia é Imperialista?– . A emergencia do tema é obvia, vidas estão sendo perdidas, familias estão sendo destruidas, crianças estão sendo abandonadas, a revolta com esta guerra é o mínimo, porem a função desta revista é esclarecer as coisas e não limitar-se a simples indignação.

Ciência dos Trabalhadores esta fazendo uma serie com o titulo -o que é o imperialismo?- e conta com dois textos parte 1 e parte 2, justamente para esclarecer acerca dessa época do desenvolvimento, ou melhor, do apodrecimento do modo de produção capitalista e suas consequencias para o conjunto dos trabalhadores, muitos outros textos estão por serem preparados, cada um tratara de uma característica em particular da época imperialista, por isso, a melhor resposta a Rodrigo Silva seria dada após a publicação destes textos. Contudo, a luta de classes passa por um processo de aceleração, a guerra da Rússia para expulsar de suas fronteiras as bases e a influencia da burguesia imperialista mais importante, a burguesia imperialista dos EUA e as outras burguesias imperialistas menores, alinhadas no quadro da Organização do Tratado do Atlantico Norte tornaram o tema do imperialismo um tema ainda mais urgente, por isso precisamos fazer alguns esclarecimentos.

Nós que defendemos o marxismo, que consideramos que o conceito de imperialismo, fase superior do capitalismo, tenha sido um dos conceitos marxistas mais perseguidos, justamente, por ser este conceito, que estabelece a necessidade urgente de uma revolução, que venha a emancipar os trabalhadores em escala planetária e acabar com a exploração da mão de obra e com a alienação do fruto do trabalhado da classe trabalhadora por parte de um punhado de burgueses. Precisamos nesse momento reafirmar a ciência dos trabalhadores e seus conceitos fundantes, contribuindo assim para o esclarecimento da situação e o estabelecimento da melhor orientação possível para a luta dos trabalhadores em escala planetária.

Nosso metodo de resposta será o metodo que usamos em outras oportunidades, colocando a integra do texto com a formatação de citação usual, aquela com uma linha azul a esquerda, e comentando, opondo os argumentos, quando outros autores forem citados, usaremos citações destacadas, aquelas que ficam no meio do texto, fazemos essa discriminação para melhor entendimento de quem esta lendo. Vamos ao texto:

A Russia é imperialista?

por Rodrigo Silva

Eu vi várias pessoas argumentando que a Rússia é imperialista, mas, até hoje, não vi ninguém usando os critérios leninistas pra isso. É o que eu vou fazer.

Iniciativa louvável do companheiro Rodrigo.

Só dois comentários antes:

– a posição econômica do país no mercado mundial não determina mecanicamente todas as situações políticas. Um país pode ser uma semicolônia e ter colônias (por exemplo, o Marrocos e o Saara Ocidental). Uma nação imperialista pode ser dependente politicamente de outra (por exemplo, Quebec). Etc. Sempre é preciso fazer uma análise concreta da situação concreta.

Até aqui temos acordo, os casos realmente parecem bastante complexos e a situação global também não é simples. Então é normal que exista certa confusão.

Aqui, eu estou usando os critérios leninistas. Não necessariamente eu concordo com toda a análise do Hilferding, que o Lênin popularizou. Principalmente porque, ao contrário da análise tradicional no marxismo, não existe um período de capitalismo de livre-concorrência no século XIX que depois foi substituído por um capitalismo monopolista. O capitalismo sempre foi caracterizado pela existência de monopólios, que sempre concorreram definindo preços. Quem fala muito bem sobre isso é o economista clássico Anwar Shaikh.

Existiria uma contradição entre o marxismo nascente e o marxismo maduro?

Aqui começam nossas divergências com Rodrigo Silva. No inicio do marxismo realmente não existiu uma determinação de um período monopolista, o que é normal, qualquer trabalho cientifico é assim, nem todas as características de um dado sistema são detectadas inicialmente, isso não implica que a detecção da fase imperialista, ligada não a aparição dos monopólios, mas a sua hegemonia, a posteriori, esteja em contradição com o inicio do trabalho de Marx. Trotsky escreveu no prefacio ao manifesto do partido comunista que nós resenhamos aqui

 Para o Manifesto, o capitalismo é o reino da livre concorrência. Referindo-se à crescente concentração do capital, o texto não tira deste fato a necessária conclusão a respeito dos monopólios, que se transformaram na força dominante do capitalismo em nossa época, premissa mais importante da economia socialista. Foi apenas mais tarde, em O Capital que Marx constatou a tendência para a transformação da livre concorrência em monopólio. A caracterização científica do capitalismo monopolista foi dada por Lênin em seu livro Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo.

https://cienciadostrabalhadorespt.com/2021/11/12/a-atualidade-do-manifesto-do-partido-comunista-prefacio-a-primeira-edicao-do-classico-de-marx-engels-publicada-na-africa-do-sul/

Trotsky parece concordar que a caracterização do papel dos monopólios é posterior aos estudos iniciais de Marx e Engels. Plekanov em – a concepção marxista da historia- nos explica que

Em um certo estado de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que a expressão jurídica disso, com as relações de propriedade no seio das quais se haviam movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas que eram, estas relações transformam-se em seus entraves. Abre-se então uma época de revolução social.

Certamente ambas as citações são, aparentemente, consistentes com a afirmação do economista que Rodrigo Silva cita, pois são afirmações de um marxismo maduro e não dos primórdios do marxismo. O que não quer dizer que sejam contraditórias com os primórdios do marxismo, na verdade o que escapa a essa critica é o salto de qualidade que o capitalismo passou no inicio do seculo xx. Contudo, em o manifesto do partido comunista Marx e Engels escrevem:

A burguesia durante seu dominio de classe apenas secular criou forças produtivas mais numerosas e mais colossais que todas as gerações passadas em conjunto

Marx & Engels – Manifesto do Partido COmunista Edições O Trabalho (1998)

Marx e Engels reconhecem assim a força do capitalismo nascente, a sua enorme capacidade, baseada no trabalho coletivo, de transformar a natureza para o interesse da humanidade, ou de parte dela, assim as forças produtivas, que representam tudo aquilo que faz a mediação entre o homem e seus interesses e a natureza, crescem como nunca cresceram. Diante disso, Marx e Engels explicam:

A subjugação das forças da natureza , as maquinas , a aplicação da quimica a industria e a agricultura , a navegação a vapor, as estradas de ferro, o telegrafo elétrico, a exploração de continentes inteiros, a canalização de rios ….que século anterior teria suspeitado que semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?

Logo, é possível entender, o que são as essas enormes forças produtivas criadas no capitalismo e quais os benefícios de unir pessoas para trabalharem coletivamente de forma coordenada.

Marx & Engels explicam que o capitalismo nasce no seio do modo de produção feudal:

Em certo grau do desenvolvimento desses meios de produção e de troca, as condições em que a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da manufatura em suma, o regime feudal da propriedade deixam de corresponder as forças produtivas em pleno desenvolvimento. Entravam a produção em lugar de impulsiona-la

a então quer dizer, que o regime feudal, o poder dos reis da monarquia baseada em um forma rural de trabalho, onde a produção era basicamente feita por grupos pequenos de indivíduos trabalhando de forma descoordenada, em dado momento, engendrou uma contradição tão grande em seu seio, que colocava sua própria existência em risco e, essa contradição vinha de sua própria natureza, eram as características intrínsecas do modo de produção que estavam na origem da crise. Será que isso também não pode ocorrer com o capitalismo? É exatamente isso que Marx e Engels explicam;

As forças produtivas de que dispõem não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa

Então sim, Marx & Engels identificam um momento em que as forças produtivas, antes desenvolvidas pela burguesia, voltam-se contra a própria burguesia gerando crises, então existe na concepção marxista , uma virada dentro do modo de produção capitalista. Uma virada que consistiria em uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo.

De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises

Marx e e Engels explicam

De um lado pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas

Costumamos chamar essa pratica de guerra e, neste caso, a analise empírica de Michael Roberts implica que o imperialismo precisa de uma guerra ver aqui. Marx e Engels continuam

Por outro, pela conquista de outros mercados e pela exploração mais intensa dos mercados já dominados

A dita globalização é uma confissão do sistema da propriedade privada dos meios de produção de que os mercados mundiais estão todos dominados, não existem novos mercados a serem explorados, o acumulo de lixo ( ver Aquecimento global e a destruição das forças produtivas Ciencia dos Trabalhadores numero 1) denuncia a crise de superprodução, o rebaixamento de nível de vida dos trabalhadores em escala planetária v aqui, faz a mais importante denuncia, que é o aumento do nível de exploração da classe trabalhadora. Portanto, o marxismo, mesmo em sua aurora, já concebia que existiria uma fase em que o capitalismo entraria em contradição com as próprias forças produtivas que ele engendrou, a concepção já existia, poderia ser grosseira e ainda imatura, justamente porque o marxismo é resultado de pesquisa e estudo e não de revelação divina. É normal que teorias cientificas em seus primórdios adotem hipóteses, que depois sejam obrigadas a abandonar, isso não faz uma teoria cientifica pior que outra, isso é próprio do metodo cientifico, mas não foi esse o caso com a formulação do imperialismo como uma fase particular do capitalismo. Assim não é verdadeira a tese defendida por Rodrigo Silva e o economista que ele citou. A concepção de uma época ascendente e de uma época em que o capitalismo estaria decadente esta na origem do marxismo.

Rodrigo Silva negligencia o papel parasita do capital financeiro

Voltemos ao texto de Rodrigo Silva, que trata nas próximas linhas da questão financeira

Além disso, o Hilferding (e o Lênin) deram uma ênfase excessiva ao poder do capital bancário. No caso do Hilferding, isso levou à conclusão reformista de que era só expropriar os principais grupos financeiros, que um governo socialista já teria o controle da economia nas mãos. Os bancos são um componente importante das multinacionais imperialistas, mas não são o principal. Essa teoria do domínio dos bancos levou a outras teorias erradas hoje, como a da financeirização, que é criticada aqui pelo economista marxista Michael Roberts.

Sejamos um pouco mais preciso do que foi Rodrigo Silva, alias o próprio Michael Roberts comenta no artigo linkado por Rodrigo Silva

Mas o que significa o termo “financeramento” e agrega valor à nossa compreensão das contradições do capitalismo moderno e nos guia para a política certa para mudar as coisas? Eu não acho. Isso ocorre porque ou o termo é usado tão amplamente que fornece muito pouca visão extra; ou é especificado de forma a ser teoricamente e empiricamente errado.

https://thenextrecession.wordpress.com/2018/11/27/financialisation-or-profitability/

Lamentavelmente, quando lemos textos e analises de pessoas que reivindicam a esquerda, encontramos este tipo de problema, a falta de rigor com os conceitos, o fato do marxismo não ser classificada pela epistemologia burguesa como uma ciência exata, não os autoriza a tratar os conceitos do marxismo com o lamentável desleixo que tratam e parece que este é o caso de Rodrigo Silva . Mas, afinal de contas, do que Michael Roberts esta reclamando?

O conteúdo da financerização sob estes termos nos leva muito mais longe, especialmente a abordagem Krippner. A definição de Krippner nos leva além da teoria da acumulação de Marx e em um novo território onde o lucro pode vir de outras fontes além da exploração do trabalho.

Michael Roberts esclarece a divergencia que tem com a tal financeirização

Para mim, a financerização é uma hipótese que olha apenas para os fenômenos superficiais da crise financeira e conclui que a Grande Recessão foi resultado de imprudência financeira por parte de bancos não regulamentados ou de um “pânico financeiro”. Marx reconheceu o papel do crédito e da especulação financeira. Mas, para ele, o investimento financeiro foi um fator de contração à tendência de queda da taxa de lucro na acumulação capitalista. O crédito é necessário para lubrificar as rodas do comércio capitalista, mas quando os retornos da exploração do trabalho começam a cair, o crédito se transforma em dívida que não pode ser paga ou em serviço. É isso que a escola de finanças não pode explicar: por que e quando o crédito se transforma em dívida excessiva?

Lenin não faz isso, não é essa a consideração de Lenin acerca do papel dos bancos e do mercado especulativo, não há, em imperialismo fase superior do capitalismo, qualquer hipótese de que o setor especulativo possa existir sem a existência da produção. Rodrigo Silva esta totalmente equivocado. Citemos Lenin, a citação abaixo é extraída do capitulo -O parasitismo e a Decomposição do Capitalismo-

Resta- nos examinar outro aspecto muito importante do imperialismo , ao qual não se tem dado a devida atenção nos estudos precedentes sobre o tema. Um dos defeitos do marxista Hilferding consiste em ter dado, neste campo, um passo atras ao não marxista Hobson. Referimo-nos ao parasitismo caracteristico do imperialismo

Vladimir Lenin -IMperialismo Fase SUperior do Capitalismo – Editora Nova Palavra (2007)

Então existe uma critica ao Hiferding do próprio Lenin em seu livro sobre o imperialismo. Parece que Lenin não apenas popularizou o trabalho de Hilferding como diz Rodrigo Silva, então mais um erro conceitual. Qual seria então essa critica que Lenin faz a Hilferding?

Como vimos, a base economica mais profunda do imperialismo é o monopolio. O monopolio é capitalista, isto é, nasceu do capitalismo e, estando no ambiente geral do capitalismo, da produção mercantil, da concorrência esta em contradição constante com o ambiente geral

a então Lenin identifica a contradição inerente do capitalismo, como para o manifesto do partido comunista o capitalismo é o reino da livre concorrência, uma hora, alguém vence a concorrência e cria o monopólio. Voltamos a Lenin e vejamos como ele entende a relação do capital bancário, o chamado rentismo, e sua relação com o capital produtivo.

O imperialismo é uma enorme acumulação num pequeno numero de paises de um capital-dinheiro que, como vimos atinge a soma de de 100 a 150 bilhões de francos em títulos . Dai o incremento extraordinário da classe, ou melhor dizendo, da camada de rentistas , ou seja, de indivíduos que vivem do “corte de cupons de titulo” estranhos a produção e cuja profissão é a ociosidade

Lenin ressalta que os rentistas são uma camada da burguesia e não uma nova classe, o marxismo divide as classes sociais quanto a posse dos meios de produção e a burguesia é a proprietária dos meios de produção, então os rentistas são uma camada da burguesia. Aqui ja vemos que Rodrigo Silva esta equivocado em sua leitura da obra de Lenin

Continuemos a citação acima

A exportação de capitais, uma das bases econômicas essenciais do imperialismo, acentua ainda mais este divorcio entre o setor rentista e a produção, imprimindo na totalidade do pais, que vive da exploração do trabalho de paises subordinados e das colonias , uma marca de parasitismo

Por todo o capitulo, Lenin reafirma o parasitismo do capital especulativo e do setor rentista, portanto Lenin não considera a existência de um tipo de “ciranda financeira” que possa ser alimentada pelas próprias finanças, mas sim que o setor rentista baseado no traballho, acrescenta ao lucro extraido da exploração do trabalho os lucros do rentismo, assim o rentismo é um parasita. Lenin no capitulo sobre o papel dos bancos fala da interpenetração entre bancos e setor industrial, que nós explicamos aqui, porem nosso próprio texto mereceria uma emenda, pois desconsideramos o fenômeno recente das empresas zumbis, que sobrevivem unicamente do apoio governamental veja aqui, em outros textos , voltaremos a este tema. Diante de tudo isso, a unica conclusão é que a critica de Rodrigo Silva não corresponde aos fatos.

Voltamos a Rodrigo Silva

O papel da Russia e a luta contra o imperialismo

Muitas pessoas, ao negar que a Rússia seja imperialista, estão usando critérios militares. Duplamente errado. Em primeiro lugar, porque a Rússia é a terceira potência militar do mundo, e em segundo lugar porque o critério para definir se um país é imperialista é econômico, não militar, a não ser que esteja sendo usada outra teoria do imperialismo, como a do Max Weber (que colocava qualquer tipo de colonialismo como imperialismo, por exemplo, colocando o Império Romano na mesma categoria dos imperialismo do século XX) ou do Joseph Schumpeter (que achava que o imperialismo era um resquício dos antigos impérios feudais).

Esse trecho da critica de Rodrigo Silva esta perfeito, nada temos a destacar. Salvo que a Russia é a terceira potencia militar, mas passa longe de ser uma potencia econômica

Novamente Rodrigo Silva

Quais eram os critérios do Lênin?

Depois de toda essa explanação Rodrigo Silva começa a explicar o que seria o imperialismo a citação a Lenin abaixo é do texto de Rodrigo Silva, por isso manteremos com a mesma formatação que estamos usando para citar trechos do seu texto

Por isso, sem esquecer o caráter condicional e relativo de todas as definições em geral, que nunca podem abranger, em todos os seus aspectos, as múltiplas relações de um fenômeno no seu completo desenvolvimento, convém dar uma definição do imperialismo que inclua os cinco traços fundamentais seguintes: 1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse “capital financeiro” da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.

Essa é uma citação explicita de um trecho de -Imperialismo fase superior do capitalismo- é a segunda vez que essa citação aparece aqui no blog, a primeira foi no primeiro texto da serie –O que é o imperialismo?– Abaixo retomamos a explicação de Rodrigo Silva acerca das características do imperialismo

1) Monopólios

Aqui nós temos uma lista dos principais monopólios russos, com o valor de mercado e aqui a capitalização dos valores de mercado delas. A Rússia não produz só petróleo como uma Arábia Saudita da vida. O capitalismo russo é mais desenvolvido que dos outros países do antigo grupo dos BRICS, como o Brasil e a África do Sul, ainda está pelo critério da produtividade por hora por trabalhador à frente da China e está um pouco atrás de outros países imperialistas de segunda linha, como Portugal e Grécia.

Nessa parte existe um erro, as definições de imperialismo de Lenin são aplicáveis a época imperialista, claro que existem países imperialistas, que são imperialistas por possuírem mais monopólios relativamente a outros países e não de forma absoluta, Rodrigo Silva tenta comparar a economia Russa com países claramente semi-coloniais, isso é um grave equivoco, o resultado dessa comparação, é que a Rússia não é imperialista , pois o imperialismo é uma época em que a tendência é a concentração em certos países e não a distribuição. Contudo, Rodrigo Silva faz uma aplicação descuidada, não ressalta neste ponto que imperialismo é uma fase do modo de produção capitalista e por isso tem dificuldade de tirar as lições que o conceito permite, o entendimento do companheiro Rodrigo Silva fica então prejudicado. Vejamos agora o que Lenin fala sobre o capitalismo Russo .

No boletim do Instituto Internacional de Estatistica , A. Neymarck publicou os dados mais pormenorizados , completos e susceptiveis de comparação sobre as emissões de titulos em todo o mundo.

Esses titulos a que Lenin se referi, são titulos associados ao mercado financeiro, então essa é uma forma de medir a concentração de um dado pais no mercado financeiro. Vejamos os dados , que são correspondentes a quatro décadas:

Inglaterra 142

EUA-132

França -110

Alemanha-95

Russia-31

os dados estão em bilhões de francos em valores de 1910. Lenin tirar a seguinte conclusão destes dados :

Vê-se imediatamente com que força se destacam os quatro paises capitalistas mais ricos, que dispõem aproximandanete de 100 a 150 bilhões de francos em titulos.

Lenin ainda informa que os quatro juntos tem cerca de 80% do capital financeiro mundial.

Então no periodo pré-primeira guerra era muito dificil dizer que a Russia seria imperialista e curiosamente os quatro paises, que estavam a frente da Russia, são os mesmos quatro grandes lideres da OTAN, como o imperialismo tende a concentração e, esta concentração apenas aumentou neste um seculo que nos separa desta analise, como atesta o trabalho da revista FORBES, por este critério a Russia não pode ser considerada imperialista.

2) Capital financeiro

A Rússia tem uma participação relativamente baixa no mercado financeiro, o que é uma herança do período soviético. Mesmo assim, a participação é maior do que da Itália, Portugal ou Grécia, pelo critério da capitalização em proporção ao PIB.

o próprio Rodrigo Silva constata então que a Russia não pode ser imperialista, pois não esta nem de longe comparável aos quatro grandes paises da lista da FORBES

3) Exportação de capitais

A exportação de bens de capital russa é maior do que a da Itália e EspanhaAqui tem um histórico dos investimentos diretos no exterior feitos pela Rússia entre 1994 e 2021, com os países que mais recebem.

A Rússia é muito conhecida por seus bilionários que investem fora do pais v aqui, informa matéria em O Globo, que esses bilionários perderam 39 bilhões em apenas um dia, após o inicio da ação militar na Ucrânia e a maioria das sanções estão atingindo intensamente esse grupo, o que os coloca em linha de choque contra Putin. Esse fato levanta claramente a hipótese de que a ação militar de Putin tenha sido defensiva, pois não esta, de imediato trazendo vantagens para sua “burguesia nacional”. O termo burguesia nacional foi posto entre aspas por motivos que explicaremos em outro lugar.

4) Associações monopolistas

A Rússia criou a Comunidade Econômica Euroasiática para manter a sua influência econômica nos antigos países da URSS, e está associada com a China na Nova Rota da Seda.

Estamos na época do imperialismo, praticamente todos os paises possuem alguma associação monopolista em algum campo.

Países, não imperialistas não estão impedidos de terem suas associações monopolistas, inclusive porque o imperialismo acaba com a livre concorrência, mas não extingue a concorrência, como comentamos em texto traduzido do Michael Roberts, onde ele comentar acerca da concorrencia entre grupos monopolistas.

5) Divisão do mundo entre as potências

Além da disputa de influência na área da antiga URSS (que é o motivo do conflito interimperialista de agora), a Rússia tenta se projetar no Oriente Médio (SíriaIrã etc) e Venezuela.

Argumento lamentável, parece teoria da conspiração, a OTAN expande seu domínio sobre o mundo todo, os EUA tem a moeda de transações internacionais.

Rodrigo Silva esta totalmente descolado da realidade, vejamos aqui os resultados da  International Initiative for the Promotion of Political Economy (IIPPE) realizada em 2021 , esta é uma conferencia de economistas, em sua maioria marxistas empíricos, ou seja , que estudam os números do mercado econômico mundial, o trabalho de Michael Roberts apresentado nesse evento demonstrou os valores que os países semicoloniais pagam de tributo aos países imperialistas, que segundo Michael Roberts .

Os países imperialistas são os mesmos “suspeitos habituais” que Lênin identificou em sua famosa obra, o Imperialismo, há cerca de 100 anos. Nenhuma das chamadas grandes “economias emergentes” está fazendo ganhos líquidos no comércio ou investimentos – na verdade, são perdedores líquidos para o bloco imperialista – e isso inclui a China. De fato, o bloco imperialista extrai mais valor excedente da China do que de muitas outras economias periféricas. A razão é que a China é uma enorme nação comercial; e também é tecnologicamente atrasado comparado ao bloco imperialista. Assim, dado os preços de mercado internacionais, perde parte do valor excedente criado por seus trabalhadores através do comércio para as economias mais avançadas. Esta é a explicação marxista clássica da “troca desigual” (UE).

Outro economista Jonh Smith fez um trabalho diferente, indo alem das trocas comerciais desiguais, amplamente vantajosas aos paises imperialistas, Jonh Smith considerou também o nivel de exploração nos paises semicoloniais

Os trabalhadores do Sul Global(Nota de C&T esse termo é usado para designar os paises semicoloniais) tiveram seus salários impulsionados abaixo até mesmo dos níveis básicos de reprodução e isso permite que as empresas imperialistas extraam enormes níveis de valor excedente através da “cadeia de valor” do comércio e das marcações intra-empresas globalmente. 

Rodrigo Silva chega as suas primeiras conclusões, depois de sua equivocada analise dos critérios leninista

Isso é o que podemos dizer a partir dos critérios leninistas. Eles não devem ser aceitos acriticamente. Por exemplo, o Lênin já falava em outros graus intermediários entre colônia, semicolônia e país imperialista.

Não mesmo, essa afirmação contradiz a afirmação de que a época imperialista implica em uma grande concentração de capitais nas mãos de poucos, que é um fenômeno reconhecido e que gera em diversos países as chamadas medidas anti-truste, que discutimos na parte 1 da seria “O que é o imperialismo?” . Neste sentido, o comentário do economista Michael Roberts nos esclarece sobre a Russia

E a Rússia não é uma super potência, econômica ou politicamente. Sua riqueza total (incluindo mão-de-obra e recursos naturais) está muito abaixo da liga em comparação com os EUA e o G7.

Nos fatos a Russia sofreu por décadas com a pilhagem imperialista , como repercutimos aqui e aqui . Voltando aos resultados a IIPE-2021, conferencia internacional dos economistas. Vemos que os resultados deste evento reafirmam o quanto Rodrigo Silva esta errado, resumiremos a analise deste evento na citação abaixo.

A grande esperança da década de 1990, promovida pela economia do desenvolvimento que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) logo se juntariam à rica liga até o século XXI, provou ser uma miragem. Esses países permanecem também rans e ainda são subordinados e explorados pelo núcleo imperialista. Não há economias de classe média, no meio do caminho, que poderiam ser consideradas como “sub-imperialistas”, como alguns economistas marxistas argumentam. O rei mostra que o imperialismo está vivo e não tão bem para o povo do mundo. E a distância entre as economias imperialistas e o resto não está diminuindo – pelo contrário. E isso inclui a China, que não se juntará ao clube imperialista.

https://thenextrecession.wordpress.com/2021/09/30/iippe-2021-imperialism-china-and-finance/

Frente Única anti-imperialista

O imperialismo é a força mais poderosa do planeta, é dos salões acarpetados, que, primeiramente a burguesia Estado-Unidense e depois a burguesia anglo-franco-alemã decide o futuro do planeta e os níveis de exploração a que vão submeter os trabalhadores. Diante disso, diante destes resultados empíricos expostos acima voltamos ao texto de Rodrigo Silva para avaliarmos suas conclusões

Rodrigo Silva escreve:

No mundo de hoje, eu diria, que a cadeia imperialista é: EUA — imperialismo europeu (que tem interesses parcialmente contraditórios com as burguesias alemã, francesa e inglesa- imperialismos de segunda linha (por questões geográficas, os imperialismos russo e chinês são imperialismos de segunda linha que cumprem o papel de potências regionais — por enquanto, a China está se projetando internacionalmente), subimperialismos (Brasil, África do Sul, Índia etc., países dependentes mas associados ao imperialismo), países capitalistas dependentes (= industrializados), semicolônias e colônias.

É até difícil responder esse trecho, devida ao tamanho absurdo, não existem essas gradações em uma época de superconcentração de capitais a distância entre as potencias e os países dominados é cada dia maior, como vimos acima. Contudo, frente a esta afirmação fora da realidade, somos obrigados a ser enfadonhos e repetir a citação acima

A grande esperança da década de 1990, promovida pela economia do desenvolvimento que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) logo se juntariam à rica liga até o século XXI, provou ser uma miragem. Esses países permanecem também rans e ainda são subordinados e explorados pelo núcleo imperialista. Não há economias de classe média, no meio do caminho, que poderiam ser consideradas como “sub-imperialistas”, como alguns economistas marxistas argumentam. O rei mostra que o imperialismo está vivo e não tão bem para o povo do mundo. E a distância entre as economias imperialistas e o resto não está diminuindo – pelo contrário. E isso inclui a China, que não se juntará ao clube imperialista.

https://thenextrecession.wordpress.com/2021/09/30/iippe-2021-imperialism-china-and-finance/

O que não podemos resolver com essa caracterização é a visão de que o imperialismo é uma característica de meia dúzia de países e que qualquer contraponto a eles é válido.

Aqui esta o problema, o imperialismo é justamente uma característica de meia dúzia de países, na verdade são quatro países(EUA, Inglaterra, Alemanha e França), o que reflete a superconcentração e a tendência ao monopólio, esses países representam o maior poder do planeta, são os responsáveis pelas guerras e pela exploração de toda a classe trabalhadora Mundial. A esse minúsculo grupo de países, ou melhor burguesias imperialistas, detentores do poder econômico, logo do poder politico, é muito difícil opor qualquer resistência. Basta ver o numero de conflitos a que OTAN esteve envolvida nestes 70 anos, que merecem também um artigo a parte. Nesse sentido, Rodrigo Silva não entende a frente única anti-imperialista, que é a unidade dos trabalhadores contra as forças das principais burguesias imperialistas. Essa unidade da classe trabalhadora, por muitas ocasiões deve defender inclusive ex-agentes do imperialismo, que por resolverem opor resistência limitada ao imperialismo caem em desgraça frente a este mesmo imperialismo, esse é o caso de Putin, essa unidade em hipótese alguma coloca qualquer tipo de dependência dos trabalhadores e suas organizações para com esses agentes, que podem, eventualmente voltar ao posto de agentes do imperialismo.

Voltamos ao texto de Rodrigo Silva

Essa posição não se baseia em nenhum critério econômico nem mesmo militar, como nós vimos, é um instinto primário e revanchista contra os Estados Unidos e a Europa, que existe como um reflexo simplório da situação da Guerra Fria. Nesse caso, não é possível um convencimento, você vai explicar toda a situação e a resposta vai ser “mas o Putin tem que se defender da OTAN” mesmo que a “defesa” implique invadir um país soberano.

Reflexo simplório? O que foi explicado acima ja mostra o quanto Rodrigo Silva esta errado.

Ironicamente, essa visão levou vários partidos comunistas no Canadá, na Europa etc a apoiarem as burguesias dos seus próprios países nas últimas décadas, com o argumento de que era necessário resistir ao imperialismo americano. Nesse caso, trocaram uma análise de classes pela geopolítica, que trata das disputas de poder e território entre Estados. Quem faz isso, necessariamente, vai apoiar quem controla alguns desses Estados, ou seja, a classe dominante deles.

Em quais ocasiões isso aconteceu? Os partidos Socialistas da Europa sempre apoiaram as iniciativas da OTAN, inclusive enviando tropas. Nunca cogitaram a retirada de seus paises desta associação, mesmo quando estiveram no governo. ver aqui , aqui, uma exceção digna de nota esta aqui uma timida nota dos Comunistas Franceses criticando a criação por parte da OTAN de

uma força de reação rápida, identificada como a verdadeira ponta de lança, capaz de mobilizar 800 soldados em 48 horas e até sete mil em uma semana, destaca o PCF em um comunicado.

https://vermelho.org.br/2014/09/09/comunistas-franceses-advertem-sobre-corrida-armamentista-da-otan/

é necessário a sublinhar que essa nota é de 9 de setembro de 2014, vemos que essa força de ação rápida tinha como objetivo:

Precisa o texto que esta força se instalará na Romênia, Polônia e nos países bálticos fronteiriços com a Rússia pela primeira vez após a desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A nota do PCF continua

Os comunistas franceses ressaltam o paradoxo de adotar esta posição depois do acordo de cessar-fogo assinado entre o governo da Ucrânia e as repúblicas de Donestsk e Lugansk, o que constitui uma verdadeira oportunidade para pôr fim ao conflito nesse país.

O PCF deseja a suspensão total das operações militares na Ucrânia e a abertura de verdadeiras negociações que levem em conta os interesses de todos os seus cidadãos.

Logo a nota do PCF não pede em hipótese alguma a saida da França da OTAN, apenas aconselha a OTAN a não escalar um conflito, como vimos, nem mesmo essa tímida nota foi ouvida pela OTAN. Então essa acusação contra as organizações dos trabalhadores não procede. A acusação oposta, a acusação de ficar ao lado do imperialismo, parece muito mais pertinente.

Rodrigo Silva continua seu texto

Mesmo que não fosse uma guerra imperialista, seria correto ser contra, adotando o ponto de vista dos interesses dos trabalhadores como um todo (que é o único critério válido para um socialista).

Essa falha na argumentação de Rodrigo Silva encontra resposta também no conhecimento acumulado pela classe operária organizada, citemos abaixo as teses da Internacional Comunista sobre as questões do Oriente

A negativa dos comunistas das colônias em tomar parte na luta contra a opressão imperialista, sob o pretexto de “defesa” exclusiva dos interesses de classe, representa um oportunismo da pior qualidade e que não pode mais que desacreditar a revolução proletária no Oriente. Não menos nociva é a tentativa de manterem-se apartados da luta pelos interesses cotidianos e imediatos da classe trabalhadora, em uma “unificação nacional” ou uma “paz social” com os democratas burgueses. 

https://serviraopovo.wordpress.com/2017/08/19/teses-gerais-sobre-a-questao-do-oriente-v-i-lenin-1922/

Portanto, a pouco provavel aliança dos partidos e organizações operarias as suas burguesias nacionais contra o inimigo externo, sob justificativa do imperialismo, é um erro equivalente ao erro cometido pelo companheiro Rodrigo Silva. Embora Rodrigo Silva o cometa por uma leitura teórica equivocada, resultado da marginalização e perseguição que o conceito de imperialismo, como fase superior do capitalismo tem sido vitima.

Essa não é uma guerra por libertação nacional de um povo (pelo contrário), nem é uma guerra revolucionária para mudar a sociedade.

Retomando aqui, mais uma vez o texto do PCF de 2014, ainda que essa não seja uma guerra clássica de libertação nacional, o motivo explicaremos em outro lugar, não se pode negar o conteúdo de defesa nacional contra a burguesia imperialista mais poderosa e não se pode negar, ainda mais, que esse ataque quebrou os plano de reposicionamento das quatro burguesias imperialistas, esse reposicionamento ficou comprometido e pode abrir uma perspectiva de enfraquecimento do controle exercido pelo partido democrata dos EUA e suas ONGS sobre as organizações operarias em escala global. ver aqui e aqui

O único motivo porque eu entrei na questão da caracterização da Rússia como país imperialista é que essa tem sido a principal desculpa para justificar a invasão, e eu quis mostrar que esse argumento é ridículo.

E fracassou de forma retumbante, pois o argumento não é ridiculo

Para mais uma vez citar o careca:

Após dizer que Lenin estar errado Rodrigo Silva cita Lenin para justificar sua posição anti-leninista.

Do ponto de vista da justiça burguesa e da liberdade nacional (ou do direito das nações à existência), a Alemanha teria incontestavelmente razão contra a Inglaterra e a França, pois ela foi «privada» de colônias, os seus inimigos oprimem incomparavelmente mais nações do que ela, e na sua aliada, a Áustria, os eslavos oprimidos gozam sem dúvida de maior liberdade do que na Rússia tsarista, essa verdadeira «prisão dos povos». Mas a própria Alemanha não faz a guerra pela libertação mas pela opressão das nações. Não cabe aos socialistas ajudar o bandoleiro mais jovem e forte (a Alemanha) a roubar os bandoleiros mais velhos e saciados. Os socialistas devem utilizar a luta entre os bandoleiros para os derrubar a todos.

Realmente não cabe aos trabalhadores e suas organizações ajudarem a qualquer bandoleiro. O que acabe é entender, que a briga entre os bandoleiros eventualmente pode causar crises entre os mesmos bandoleiros e fragilizar sua unidade. A guerra, é em si, algo a ser condenado, os motivos da guerra as forças que disputam e o que esta em disputa é algo a ser entendido e Rodrigo Silva não entende o que esta em jogo, por isso essa ultima citação do Lenin esta totalmente fora do contexto, comparando um pais imperialista a Alemanha , com a Russia , que como vimos, contradiz inclusive os interesses de seus oligarcas com essa ação, o que fortalece que essa tenha sido uma ação defensiva.