O que é o imperialismo? parte 2-O papel dos bancos-

Essa é a segunda parte da serie “O que é o imperialismo?“. Na primeira parte falamos de um dos traços mais marcantes da época imperialista, a concentração de capitais, mais esquecemos de comentar acerca de um exemplo importantíssimo de medida, que usa o índice Herffindal, índice que mede o nível de concentração de um dado setor do mercado. No Brasil existe a eterna proposta de lei de meios defendida pelo PT. A Carta Capital trás um balanço acerca desse problema, um dos muitos problemas que ficaram por serem resolvidos pelos governos do PT. Indicando a dificuldade de se combater esse setores da burguesia, em especial em um pais semicolonial como o Brasil. Essa seria certamente uma emenda a ser feita na primeira parte desta serie. Como analisamos no primeiro texto, essas medidas anti-truste, geralmente não são suficientes para evitar a concentração dos mercados. Tanto que os mercados ficam cada dia mais concentrado, sendo uma das principais características do imperialismo fase superior do capitalismo.

O Papel dos Bancos

Nesta postagem vamos discutir o papel de um setor fundamental no capitalismo, os bancos, ou melhor, o mercado financeiro. Vamos nos pautar pelo livro -Imperialismo Fase Superior do capitalitalismo- o qual recomentamos fortemente a leitura. Contudo, esse livro foi editado em 1916 , contendo dados dessa época, nós vamos, neste sentido, seguir o mesmo método de Lenin ao escrever o -Imperialismo Fase Superior do Capitalismo- vamos procurar fontes para nosso texto, justamente na literatura disponível na net e editada pelos próprios banqueiros. Essa é uma literatura, que em geral, é desprezada pelos que reivindicam a esquerda, mesmo porque não é escrita para os trabalhadores, mas para os próprios usuários do mercado financeiro. Por isso mesmo consideramos que esses sites constituem uma fonte mais segura, pois é banqueiro falando para banqueiro. Vamos explicar detalhadamente o funcionamento do mercado financeiro e sua importância para o funcionamento do capitalismo atual e como o crescimento deste setor financeiro esta intimamente ligado a própria decomposição do capitalismo.

Para que serve um banco?

Entrando finalmente no tema desta segunda parte. Citemos Lenin em “Imperialismo fase superior do Capitalaismo” quando este define o papel dos bancos

A operação fundamental e inicial é a de intermediários de pagamentos. É assim que eles convertem capital dinheiro inativo em capital ativo, isto é, em capital que rende lucro.

Vladiminir Lenin, Imperialismo Fase Superior do Capitalismo, Editora Nova Palavra pagina 37

Esse era o papel dos bancos na época da ascensão do capitalismo, época em que os bancos ainda não tinham passado pelo processo de concentração, essa definição é importante, pois contem uma expressão que é parte do jargão dos banqueiros “ativo”, como disse Lenin um ativo é capital que rende lucro. Na continuidade Lenin define o papel dos bancos na época do imperialismo.

A medida que crescem e se concentram num numero reduzido de estabelecimentos, os bancos se convertem, dos modestos intermediários que eram antes, em monopolistas onipresentes , que dispõem de quase todo capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas…

Vladimir Lenin Imperialismo Fase Superior do Capitalismo Editora Nova Palavra pagina 37

Dito isso. Usaremos agora como referencia a conhecida revista FORBES, que tem reconhecida expertise em fazer listas de pessoas e instituições mais poderosas. Em uma dessas listas a Forbes listou as maiores e mais bem sucedidas empresas do Mundo, vejamos qual a analise que a própria Forbes faz:

Os bancos dominam a lista Forbes Global 2000 de 2020, uma medida das maiores e mais bem-sucedidas empresas do mundo

https://forbes.com.br/listas/2020/05/global-2000-os-maiores-bancos-do-mundo-em-2020/

Vemos então, que a importante revista Forbes concorda com Lenin em alguma coisa. Seria essa acordo algo inesperado ou uma confirmação das previsões econômicas do marxismo? Continuemos! A Forbes continua explicando as somas vultosas que os bancos giraram durante o período da pandemia

 as empresas americanas obtiveram mais de US$ 500 bilhões em crédito, grande parte dos quatro maiores bancos dos Estados Unidos.

Lenin escreve no distante ano de 1916

Esta transformação , de numerosos e modestos intermediários num punhado de monopolistas, constitui um dos processos fundamentais da transformação do capitalismo em imperialismo

O que diria a Forbes no ano de 2021, acerca do papel dos bancos durante a pandemia?

o papel dos grandes bancos quase nunca foi tão importante.

Então temos que essa caracteristica do imperialismo é hoje ainda mais dominante do que na época de Lenin. Hoje os bancos jogam um papel fundamental na economia, ainda mais fundamental que na época de Lenin. Aqui começa a aparecer o perfil dos bancos como gerador de capital fictício, ou seja , capital não baseado na produção, pois durante a pandemia a produção mundial estava basicamente parada pelos bloqueios sanitários, veja aqui dados do PIB de 28 paises em 2020 e aqui as perspectivas de recuperação.

Na sequencia Lenin segue listando os bancos e demonstrando como os bancos estavam concentrando poder, naquele inicio de seculo xx. Na época o dólar ainda não tinha o papel destacado de moeda internacional que liquida dividas, então Lenin estuda os valores movimentados pelos bancos em sua época em marcos alemãs, o que torna a comparação muito difícil, sendo assim temos dificuldade de comparar o volume de capitais movimentados hoje em dia com o volume movimentado há um século atrás. Mas o que Lenin relata com dados e fatos é a transição da época da livre concorrência para a concentração da riqueza nas mãos de grandes bancos. Portanto o monopolio é o resultado da livre concorrência! A Forbes relata, como esta a concentração de capitais nos dias de hoje:

Com o desemprego subindo para 14,7% e a economia entrando em profunda recessão nos EUA, os bancos no topo do Forbes Global 2000 foram resistentes ao choque econômico.

Sendo a burguesia imperialista dos EUA a burguesia mais poderosa do Mundo, esse poder se manifesta na conclusão da Forbes

os bancos dos EUA parecem ser os mais saudáveis

A Lista da FORBES segue com bancos britânicos, alemães e franceses, assim como a lista de Lenin, a diferença entre as duas listas são os bancos Chineses, na verdade o banco Morgan esta na lista editada por Lenin. Contudo, a parceria dos bancos com o setor produtivo, em especial as empresas de alta tecnologia Appel/Goldman-Sachs, Google/CityGroup e Amazon/JPMorgan, mostra que a concentração em torno dos bancos não cessou, ainda que essas empresas sejam gigantes, elas continuam crescendo e destruindo os seus concorrentes. A pandemia foi, neste sentido, mais um fator de seleção entre os bancos.

A atualização de 2021 da lista da FORBES nos revela que

a gestão de fortunas e os mercados de capitais foram as linhas de negócios mais fortes para os grandes bancos.

Essa fusão entre capital industrial e capital bancário também é notada por Lenin .

Concentração da produção que tem como resultado os monopólios , fusão ou interpenetração dos bancos com a indústria: tal é a história do aparecimento do capital financeiro

É a FORBES e não Lenin quem diagnostica o crescimento dos grandes bancos com a pandemia, em detrimento da alta taxa de desemprego.

Da hegemonia à hipertrofia- O parasitismo do capital financeiro

Fonte: Jorge Nóvoa, Paulo Balanco https://doi.org/10.1590/S0103-49792013000100007

O gráfico acima mostra o PIB Mundial, ou seja , a soma de tudo que é produzido em escala planetária, e ao mesmo tempo o capital especulativo, ativos financeiros. No setor especulativo, vemos claramente as crises da bolsa NASDAQ (em 2001) e a crise das hipotecas nos EUA , ver aqui uma retrospectiva do século XXI feita pela BBC-News Brasil, onde Camila Veras Motta narra a história das crises econômicas do Século XXI , inclusive narrando a fusão de diversos bancos, a narração de Camila Veras Mota é quase que como acompanhar passo a passo, cada um dos acontecimentos que geraram o gráfico acima. O professor Rodrigo Dantas da UNB explica o que esta acontecendo na Revista (Dantas, R. Cadernos de Ética e Filosofia Política 14, 1/2009, p. 47-72)

Ao longo deste período,
a massa de capitais sobre acumulados investidos no mercado financeiro,
na mesma medida em que permitia a ampliação do crédito, do investimento e dos processos diretos de produção de valor e mais-valia, impulsionava a multiplicação dos mecanismos de valorização fictícia do
capital, aos quais já não correspondia nenhum valor e nenhuma capacidade de produzir ou extrair mais-valia adicional

Fonte: Politize

A Mais valia é um conceito marxista, que retrata o fenômeno, de que, o salario recebido pelo trabalhador, paga apenas a reprodução da sua força de trabalho, ou seja, a manutenção das condições que o fazem estar de pé no dia seguinte para poder trabalhar e não mais que isso. Porem, o trabalhador entrega ao patrão um valor muito mais alto, do que o seu próprio salario. Contudo, a financeirização da economia permite a criação de um mecanismo de sobrevalorização do mercado com créditos artificias. Os chamados mercados futuros, que não passam de apostas, acerca da possibilidade de entrega de uma dada mercadoria. Temos assim a criação de um mercado de produtos fictícios, fantasiosos.

Os mercados futuros

A revista infomoney oferece um guia do funcionamento do mercado financeiro. Definindo os mercados futuros de uma forma bem simples

 Em poucas palavras, os contratos futuros representam o compromisso de comprar ou de vender uma certa quantia de um determinado bem em uma data adiante e por um preço.

https://www.infomoney.com.br/guias/mercado-futuro/

Porem antes de entender os mercados futuros, precisamos entender um termo, uma classificação da qual os mercados futuros são parte, são chamados mercados derivativos. Um derivativo é um contrato associado a uma dada mercadoria, também chamada ativo, aqui também vale a definição de Lenin; ativo é capital que rende lucro, esse papel pode representar uma certa quantidade de dólar, soja, petróleo, emissões de gás carbono, ou qualquer outra coisa. Os mercados futuros são parte desses derivativos, as outras categorias de mercados derivativos são Contratos a Termo, opção e Swaps.
Os contratos a termo são definidos:

Quem compra um contrato a termo se compromete a comprar uma mercadoria ou um ativo financeiro, em uma quantidade determinada, por um preço que está estabelecido desde o momento da negociação, para liquidação em uma data no futuro (também definida desde o início). Já para quem vende um contrato a termo, o compromisso é o contrário: de vender esse mesmo ativo. Esses instrumentos podem ser negociados na bolsa, mas também no mercado de balcão.

A diferença dos contratos a termo e futuro são pequenas e estão associados ao pagamento(v aqui). Em certo sentido os mercados futuros são evolução dos mercados a termo. Aquilo que é chamado tecnicamente de liquidação da divida. Os contratos a termo o preço é fixo e os contratos futuros oscilam diariamente. Essas são as chamadas oscilações da bolsa.

Opções:

São vendidas ou compradas por um “premio” fixo. Esse prémio não é o preço da mercadoria propriamente, mas uma promessa de compra e venda.

Swaps: É uma tentativa de tornar a transação mais segura, mais confiável.

Representa um acordo entre duas partes – duas empresas, dois investidores, uma empresa e um investidor, entre outras possibilidades – para que troquem entre si fluxos de caixa baseados em um valor de referência, um prazo e outras condições e critérios preestabelecidos.

https://www.infomoney.com.br/guias/swap/

A idéia é compensar os riscos de uma dada mercadoria, ancorando uma mercadoria a cotação de outra.

O primeiro contrato de Swap foi feito entre IBM e o Banco Mundial:

No início da década de 1980, a IBM e o Banco Mundial fecharam um acordo de swap de divisas. Segundo o contrato, o banco assumiria as dívidas em francos suíços e marcos alemães (moeda do país na época) mantidas pela IBM. Já a IBM assumiria dívidas em dólar da instituição financeira.

Assim temos uma ancoragem, as duas empresas não correm um risco, caso uma das mercadorias naufrague, a outra mercadoria compensa os prejuízos, então é uma forma de dividir o prejuízo, caso uma das duas mercadorias venha se desvalorizar.

Contudo aquilo que ouvimos falar de bolsas de valores usualmente estamos ouvindo falar dos mercados futuros

Como isso atinge os trabalhadores no dia a dia ?

Um exemplo recente é o caso da divida da empresa EVERGRANDE na China, que esta abandonando os prédios construídos e deixando um rastro de torres abandonadas, que vão apodrecer no abandono, enquanto as pessoas que pretendiam morar ficam sem casas, segundo a CNN aproximadamente 260 milhões de pessoas, ficaram sem o seu apartamento. Constituindo- se em um enorme desperdício de trabalho humano e recursos naturais, logo uma destruição de forças produtivas, para retomarmos os termos do manifesto do Partido Comunista(ver aqui prefacio de Trotsky ). Assim os capitais financeiros mostram todo o seu parasitismo, pois crescem as custas da destruição de mercadorias reais. Hoje o capital financeiro é tão majoritário, em relação ao capital produtivo, que mesmo durante os bloqueios da pandemia , com a paralisação total de economias inteiras, são os bancos que tem melhor desempenho, o que mostra uma concentração maior ainda da economia nas mãos dos banqueiros.

Dilma e a desoneração da Folha de pagamento

Aqui no Brasil ocorreu uma enorme desoneração da folha de pagamento no governo da companheira Dilma Roussef, que reconheceu, ter errado neste caso, segundo pesquisa do IPEA:

A desoneração da folha de pagamentos entrou em vigor no Brasil em 2011, por meio da Lei 12.546. As empresas aptas eram as não optantes pelo regime Simples de tributação e de alguns setores específicos. Em vez dos 20% de contribuição patronal ao regime de previdência incidentes sobre a folha de pagamentos, elas passariam a contribuir com um valor correspondente a algo entre 1% e 2% sobre o faturamento. O objetivo era aliviar a carga tributária das empresas para criar novos empregos, mas o Texto para Discussão nº 2357, publicado pelo Ipea, mostra que não houve efeitos reais desse programa sobre o número de postos de trabalho.

https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=32244

O Deputado Afonso Forense do PT-BA faz um balanço dessa medida aplicada na época, que certamente foi uma das geradoras do movimento que legitimou o golpe contra Dilma posteriormente:

Os empresários fizeram aplicações financeiras, e a medida desfinanciou a seguridade social…

https://www.cartacapital.com.br/economia/heranca-da-era-dilma-prorrogacao-da-desoneracao-da-folha-divide-opinioes/

Assim a pressão da burguesia nacional pela desoneração da folha de pagamento, levou dinheiro publico diretamente para especulação financeira dimuindo o orçamento das aposentadorias, esse é um exemplo de parasitismo do mercado financeiro.

A Agencia Nacional informou que Bolsonaro ira ampliar a desoneração da folha de pagamento por mais dois anos, segundo o portal da camara essa desoneração custara 10 bilhões aos cofres públicos . O acordo com a burguesia, segundo o próprio Bolsonaro, é que essa desoneração vem em substituição a reforma administrativa , que esta empacada recebendo grande resistência das organizações dos trabalhadores , a ponto do “sinistro” da economia pedir apoio aos servidores para a reforma administrativa. Veja aqui na pagina da CUT a cobertura da resistência a essa reforma .

O mercado de Carbono e o aquecimento global

Na revista Ciência dos Trabalhadores temos um artigo intitulado “Aquecimento Global e a destruição das forças produtivas” que demonstra a relação do acordo de Paris e das conferencias da ONU com o mercado financeiro. O economista Michael Roberts trás aqui uma cobertura da COP-26. Em próximos textos voltaremos a discutir essa questão.

Qual o motivo dos capitalistas precisarem investir em mercados que não produzem nada e são parasitários?

Deixaremos para responder essa pergunta na continuidade da serie, onde trataremos da Oligarquia Financeira .

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

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