Entrevista com a historiadora Fabiana Junqueira autora do livro “Caipiras Uni-vos!”

A Revista Ciência dos Trabalhadores tem o prazer de conversar com a historiadora Fabiana Junqueira, Graduada e Mestre em História pela UNIFESP e Doutoranda em História na UNICAMP. A professora Fabiana Junqueira estuda as organização sindical da classe operaria brasileira. Recentemente professora Fabiana publicou o interessante livro Caipiras Uni-vos uma breve historia da classe operaria no século XX, que nós recomendamos fortemente a leitura. Ciência dos Trabalhadores não poderia ficar de fora deste debate e da divulgação deste livro. Nós acreditamos que uma biblioteca não é um luxo, mas uma necessidade e necessário também é o livro da professora Fabiana, que recupera momentos do movimento operário brasileiro, aparentemente esquecidos, o livro de Fabiana é certamente uma contribuição para a ciência dos trabalhadores afinal de contas:

A emancipação dos trabalhadores é hoje e a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência Operária. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construída e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação .

https://cienciadostrabalhadorespt.com/about/

Esperamos, com essa entrevista, ajudar na divulgação das importantes lições que professora Fabiana tem a nos ensinar, esperamos que essa seja apenas a primeira de muitas outras colaborações.

Entrevista com a professora Fabiana Junqueira

C&T: O título do seu livro é bastante provocativo, fazendo alusão a frase de encerramento do manifesto do partido comunista “Trabalhadores, Uni-Vos”, pois o manifesto chama uma união internacional e você estuda o movimento operário circunscrito a região de Piracicaba. Que particularidades você encontrou nas reivindicações dos trabalhadores Piracicabanos? 

Fabiana: A história do movimento operário é uma história de lutas coletivas. A ideia central do livro é também retratar como os trabalhadores de Piracicaba se uniram aos de outras cidades e estados na busca por melhorias e direitos no mundo do trabalho. No entanto, é claro que esse passado também foi marcado por singularidades regionais. Creio que, em Piracicaba, houve uma conexão bastante importante entre o movimento dos trabalhadores da lavoura e o dos operários das fábricas. Isso porque, a cidade teve na cana-de-açúcar, um importante sustentáculo econômico, ao longo de todo o século XX – e até mesmo antes. Portanto, a luta da classe trabalhadora aqui envolveu questões do campo e da cidade, mais do que em outros municípios, como é o caso dos grandes aglomerados urbanos, como São Paulo.  

C&T: O Dieese tem um gráfico mostrando a evolução do salário-mínimo, desde sua criação até os dias atuais. O gráfico mostra um grande vale nos governos FHC. Como foi esse período de fim de século em Piracicaba? 

Fabiana: no último capítulo do livro apresento o depoimento de um sindicalista que viveu esse fim do século em Piracicaba. De fato, na década de 1990, os trabalhadores sofreram – como aliás durante todo o século XX – com os baixos salários e com a carestia de vida. No livro, eu pergunto para um operário o que ele pensa sobre o movimento operário e sindical da atualidade. Na resposta – fazendo um spoiler da obra – ele diz que as condições de luta hoje são bem mais difíceis do que durante a Ditadura Militar. Isso porque, ainda de acordo com a resposta dele, os governos das décadas de 1990 “acabaram com os direitos” dos trabalhadores. Creio que a percepção desse trabalhador, ainda que seja uma análise pessoal, reflete a sensação de muitas outras lideranças sobre essa época e, por si, já responde a sua pergunta. 

C&T: Como os fenômenos do século xx repercutiram nas organizações operárias em Piracicaba, em especial aqueles que desembocaram na constituição do PT e da CUT? 

Fabiana: Na década de 1980, a luta do movimento operário deixou de ser pelo fim da Ditadura, que durou até 1985, e começou a ser travada dentro da democracia. Esse fato, permitiu um maior poder de mobilização da classe trabalhadora, e, eu diria, que permitiu que, organizações como o PT e a CUT, crescessem nessa época. Em 1988 o PT conquistou a prefeitura de São Paulo, Santos, Porto Alegre, Vitória além de 33 outras cidades. Não por acaso, Piracicaba elegeu duas vezes um prefeito pelo Partido dos Trabalhadores durante o final da década de 1980 e o final dos anos 1990. O José Machado.

C&T: Você consegue notar efeitos da automação na vida dos trabalhadores e na sua forma de organização? 

Fabiana: Desde a Revolução Industrial, eu diria que até antes disso, o trabalhador teve de lidar com “eficiência” da máquina, isso não é um fenômeno atual. E durante todo o século XX, a mecanização não impediu que os operários desenvolvessem sua consciência de classe e lutassem não apenas por direitos trabalhistas nesse “mundo moderno”, mas também por direitos civis. 

C&T: Um tema caro para nós em C&T é a questão da perseguição política, como foi a luta contra a perseguição política e pelo direito a auto-organização? Como eram combatidas as ações antisíndicas? 

Fabiana: Ao longo de todo o século XX os trabalhadores precisaram lidar com diferentes formas de perseguições. Em 1919, a greve operária dos trabalhadores do Engenho Central e da fábrica Arethusina (antigo nome da fábrica Boyes) em Piracicaba, pelas 08 horas de trabalho, foi noticiada pela imprensa piracicabana como parte de uma malévolo “Plano Bolchevista” para saquear a cidade. Os líderes da Liga Operária foram duramente perseguidos e presos. Na Ditadura Militar, vários outros sindicalistas do município foram presos ou chamados para depor no DEOPS. Isso foi recorrente durante todo o século…os operários nunca deixaram de se organizar ou lutar por melhorias, mas sofreram recorrentemente com perseguições no município e em todo o país.  

C&T: Frente a enorme crise de decomposição do capitalismo, você acredita que é possível a existência de Estados democráticos de direito em algum lugar do mundo?

Fabiana: Penso que o único caminho é pela democracia…

C&T: O congresso nacional e as instituições procederam uma grande quantidade de emendas à constituição, muitas dessas revogaram direitos trabalhistas, conduzindo uma verdadeira desvalorização da mão de obra, você acha que existe hoje um tipo de “ilusões constitucionalistas” nas organizações operarias? 

Fabiana:  Os operários brasileiros aprenderam sabiamente a utilizar as instituições – entre elas, a Justiça do Trabalho – para alcançar os seus direitos. Isso não significa que eles estivessem sempre atuando dentro do que era permitido por lei ou pelo governo. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, faltar no serviço poderia constituir em crime de deserção, assim como fomentar greves nos locais de trabalho, nesses casos, os operários que trabalhavam nas indústrias da “defesa nacional” poderiam ser punidos com prisão, que variava de dois a seis anos! Bem, as greves não deixaram de ocorrer nessa época…Portanto, não acredito que há uma “ilusão constitucionalista” na história das organizações operárias brasileiras… 

C&T: Nem mesmo no pós golpe 2016? Veja que o tempo todo as direções afirmavam que Dilma não cairia e em 2018, que Lula não seria preso, mas Dilma caiu e Lula foi preso. Nessas circunstancias podemos dizer que existe Estado democrático de direito?

C&T: Defender que o caminho pela democracia é parte da luta da classe operaria, defender direitos ditos democráticos , como o próprio direito a auto-organização é parte do programa que essas organizações cristalizam. Contudo, vivemos tempos em que golpes multiplicam-se pelos países semicoloniais, mesmo nos países imperialista existe uma brutal repressão as organizações dos trabalhadores. A nossa pergunta é; Concretamente dadas as atuais condições econômicas, que indicam uma profunda depressão do modo de produção capitalista, na verdade a depressão mais longa da história , esse modo de produção ainda é capaz de conviver com a democracia?

Fabiane Junqueira

bem, o livro trata da história da classe trabalhadora durante o século XX e eu reconheço no livro que me faltam dados de pesquisa para uma análise dos tempos recentes da história do Brasil. Todavia, penso  que temos pouco tempo de experiência democrática no país. O breve período entre 1945 e 1964 também foi interrompido por um Golpe. Tanto no intervalo democrático (1945-1964) quanto na Nova República Democrática (1985-2022), tivemos violações dos direitos da classe operária, que teve, sempre, que manter-se vigilante para que as conquistas contidas na constituição fossem cumpridas. Quando analisei os processos trabalhistas da década de 1960, percebi que algumas estruturas que haviam sido criadas para a contenção dos trabalhadores, como, por exemplo, a Justiça do Trabalho, foram inteligentemente manipuladas pelos operários. Nessa direção, não acredito que via institucional anulou outras formas de mobilização operária, assim como percebo que a via institucional, foi relevante no processo de construção identitária dos trabalhadores brasileiros. A regulamentação da Justiça do Trabalho, em 1940, e o advento da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, também foram importantes no sentido de possibilitar que os operários se livrassem de uma suposta dívida de lealdade com os seus patrões, sempre vistos como responsáveis pelo seu bem-estar, e operassem, via institucional, por melhorias no mundo das fábricas. A história da democracia, portanto, é uma história de conflitos, assim como a Lei é um campo de batalhas…tanto ontem quanto hoje. Creio que respondi, ou ao menos tentei, responder suas duas perguntas. 

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

Um comentário em “Entrevista com a historiadora Fabiana Junqueira autora do livro “Caipiras Uni-vos!”

  1. Um texto repleto de sabedoria e informações relevantes…Os trabalhadores Unidos… jamais serão vencidos… VIVA A Esquerda Democrática Socialista Latino-Americana..

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