As principais burguesias imperialistas reposicionam suas peças no tabuleiro mundial da luta de classes. Parte 1-Um balanço de 2021

Um dos objetivos desta revista é tratar de temas, que usualmente não são tratados pelas organizações operárias. Por isso dificilmente teremos analises de conjuntura por aqui, pois para fazermos tais analises e sermos devidamente compreendidos, precisamos que nossos leitores entendam alguns conceitos, que são parte do arsenal teórico do marxismo, sem o entendimento destes conceitos, a experiência de leitura de nossos textos fica seriamente prejudicada! Conceitos esses oriundos de escolas do marxismo, há muito marginalizadas, perseguidas pelos doutos acadêmicos, excluídas do debate nos círculos dirigentes do movimento operário. Por isso fazemos o tempo todo series de revisões de conceitos marxistas, para que quando necessitemos fazer uma analise de conjuntura, possamos lançar mão destes conceitos revisados. Este é o caso aqui. Abriremos exceção e faremos uma analise de conjuntura por ocasião do encerramento do ano de 2021, fazendo uma breve revisão de conceitos marxistas necessários para compreender nossa analise e depois partido aos fatos do ano de 2021, que indicam a existência de uma crise de dominação da burguesia imperialista dos EUA e algumas das consequências imediatas para essa crise. Logo não se trata de uma retrospectiva que recupera cada fato mês a mês, mas um resumo das consequências mais importantes.

Pequena revisão conceitual

No livro -Imperialismo fase superior do capitalismo- ,ao qual estamos dedicando uma serie de artigos, (veja aqui e aqui ), existe um capitulo intitulado -A critica do Imperialismo-, voltaremos a este assunto, em seu devido tempo no desenvolvimento da serie de artigos- o que é o imperialismo?- porém aqui, somos obrigados a fazer referência a este capitulo, pois nele, Lenin polemiza com Kaustki( um marxista alemão que a essa altura migrava para uma posição anti-marxista) acerca das consequencias do imperialismo. A polemica pode parecer boba, até certo ponto, pois Lenin e Kaustiki usam conceitos parecidos, mas Kaustki chega a conclusões erradas. Resumimos então a critica de Lenin a Kaustki.

Com efeito, basta comparar fatos notórios , indiscutiveis , para nos convencermos da falsidade das perspectivas que kaustiki tenta inculcar nos operários alemães e no proletariado internacional

Imperialismo Fase Superior do Capitalismo Editora Nova Palavra pagina 139

Lenin passa a considerar a perspectiva de um acordo entre as principais burguesias imperialistas do Mundo e suas consequências.

Tomemos o exemplo da India, Indochina(Nota de C&T veja aqui o que Lenin chama de Indochina) e da China sabemos que essas três colônias e semicolônias, com uma populaçãop entre 600 e 700 milhões de habitantes, encontram-se submetidas à exploração de varias potencias imperialistas: Inglaterra, França, Japão, EUA e etc. Suponhamos que esses paises imperialistas formem alianças opostas entre si, com o objetivo de defender ou alargar possessões, ou seus interesses “áreas de influencia” na região. … Suponhamos que todas essas potencias imperialistas constituam uma aliança para a partilha “pacifica” destes países asiáticos esta será -uma aliança do capital financeiro unido internacionalmente-. Na história do seculo XX , encontramos casos concretos de alianças desse tipo …. Sera possivel , considerando a manutenção do capitalismo , que essas alianças não sejam de curta duração

IMperialismo Fase Superior do Capitalismo , Editora Nova Palavra, Pagina 140

Lenin resume seu questionamento , deixando ainda mais claro

Será concebível que eliminem -se as fricções, os conflitos e a disputa, sob todas as formas possíveis e imagináveis entre as potencias?

Imperialismo Fase Superior do Capitalismo , Editora Nova Palavra, Pagina 140

A resposta é hoje ainda mais dramática do que na época de Lenin. Assim o imperialismo é uma época, a época da “reação em toda a linha“, uma época em que as crises se sobrepõem umas as outras. E que a cada momento as diversas burguesias imperialistas precisam buscar uma reorientação de suas ações e de suas relações para preservar os seus interesses. Então, não é possível a existência de um pacto duradouro entre as potencias imperialistas e o exemplo mais dramático é a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que foi descrita como um pacto em estagio de morte cerebral por Emmanuel Macron (v aqui e aqui).

Sintomas de uma decadência relativa, ou a impossibilidade do sistema encontrar um Estado de equilibrio?

Recentemente traduzimos um texto do economista Michael Roberts acerca da saida dos EUA do Afeganistão. Michael Roberts explicava:

O rápido colapso do governo fantoche do Afeganistão quando as tropas americanas se retiraram da guerra com o Talibã e deixaram o país após 20 anos foi comparado à queda de Saigon no final da guerra de 30 anos “americana” contra o povo vietnamita. As cenas de afegãos tentando entrar em aviões americanos no aeroporto para escapar parecem surpreendentemente familiares para aqueles de nós que se lembram dos últimos dias de Saigon.

As semelhanças não param por ai , mas a crise do capitalismo é muito mais aguda do que era na decada de 60. A cooperação entre os diversos imperialismo, constituida no pós guerra, começou a ruir

faz 50 anos até o mês em que funcionários do governo do presidente Nixon se reuniram secretamente em Camp David para decidir sobre o destino do sistema monetário internacional. Nos últimos 25 anos, o dólar americano havia sido fixado ao preço do ouro (US$ 35/oz) por acordo internacional. Qualquer um que tenha um dólar pode se converter em uma quantidade fixa de ouro das reservas dos EUA. Mas em agosto de 1971, o presidente Nixon foi à televisão nacional para anunciar que havia pedido ao secretário do Tesouro, John Connally, para “suspender temporariamente a conversibilidade do dólar em ouro ou outros ativos de reserva”.

Esse foi o inicio da queda dos acordos de Bretton-Woods e que teve outro ponto de inflexão na queda do Muro de Berlin, cujo entre os escombros não estão apenas tijolos e ferragens, mas também os acordos de Yalta-Potsdam. Assim a crise não é apenas uma crise de hegemonia da burguesia imperialista dos EUA, mas uma crise mais ampla de todo o modo de produção. A prova disso é que os imperialismos concorrentes aos EUA, não lhe conseguem fazer frente

apesar do declínio econômico relativo do imperialismo americano, o dólar americano permanece supremo.

A unica tentativa concreta de enfrentar o dolar como moeda de troca internacional por parte dos imperialismos concorrentes foi

De fato, uma das razões para a União Europeia, liderada pela capital franco-alemã, decidir estabelecer uma união monetária única na década de 1990 foi tentar quebrar a hegemonia do dólar do comércio internacional e das finanças. Esse objetivo teve apenas um sucesso limitado, com a participação do euro nas reservas internacionais estável em cerca de 20% (e quase tudo isso devido às transações intra-UE).

Essas tentativas frustradas das burguesias imperialistas franco-alemão, incapazes fazer frente a burguesia imperialista dos EUA, temos agora um reposicionamento dos imperialismos dos dois lados do Atlantico.

Um reposicionamento das burguesias imperialistas Estado-Unidense e Francesa

Um conflito particularmente interessante entre as diversas burguesias imperialistas tem sido o protagonizado pelas burguesias francesas e norte americanas. Um texto em 4 de outubro de 19 na falecida revista Ciência & Revolução percebia uma disputa entre essas duas burguesias pela influencia na Argélia (veja aqui). Depois disso muitos outros capitulos foram escrito e o protagonismo de Emanuel Macron denuncia essa crise.

As relações entre Africa, em particular a região do Magreb, e União Europeia(veja aqui uma explicação do que é a União Européia) são obviamente antigas . Inclusive já se pretendeu um tratado de livre comercio Magreb(Norte da Africa) e a União Européia, tendo como um dos entraves a crise migratória. Contudo, Macron tem feito esforços para manter o domínio Frances na região, entre esses esforços recentes esta o encontro organizado conjuntamente por Macron e o intelectual supostamente de esquerda Achille Mbembe . Nesse inicio de ano a França assume a presidência rotativa do bloco Europeu e Macron estabelece os seguintes objetivos para essa presidencia

O espaço Schengen é a politica da livre circulação de pessoas pelo bloco Europeu

Nas palavras do próprio Macron:

Para evitar que o direito de asilo, que foi inventado no continente europeu e que é uma honra nossa, seja mal utilizado, precisamos, absolutamente, de encontrar uma Europa que saiba proteger as suas fronteiras e de encontrar uma organização política que nos coloque em condições de defender os seus valores, razão pela qual iremos iniciar, sob esta presidência, uma reforma do espaço Schengen

https://pt.euronews.com/2021/12/09/seis-prioridades-de-emmanuel-macron-para-a-presidencia-francesa-da-ue

A questão da crise migratória aparece aqui. Vemos portanto, que a destruição da Siria, como do Oriente Médio foi provocada pelas ações da OTAN, portanto, a crise migratória no Mediterraneo é uma consequência direta da ação das organizações que congregam as diversas burguesias imperialistas. A reforma do Estatuto do migrante na UE é portanto uma resposta a consequências das próprias ações dos grande deste Mundo. Sendo assim, uma das marcas da administração Macron e, acima disso, o resultado da cooperação “harmonica” entre as diversas burguesias imperialistas. Dito de outra forma; a crise migratória consiste assim, no resultado pratico e exemplar de quando as diversas burguesias imperialistas conseguem agir em harmonia.

  • Defender o modelo social da Europa

A proposta concreta nesse sentido, é um modelo de serviço jovem europeu, que pode ser o embrião do exercito pan-Europeu. Na pagina do parlamento Europeu, vemos detalhadamente esse projeto. Obviamente que esse exercito pan-Europeu seria uma rebeldia da união Européia e uma tentativa de autoafirmação frente a burguesia imperialista mais poderosa do Mundo a burguesia estado-unidense. Esse ponto é um dos pontos mais tensos nas relações Inter imperialistas.

  • Reconciliar ambições climáticas com o desenvolvimento económico

Deixemos que o próprio Macron explique

Sob a presidência francesa, um dos nossos objetivos será implantar o Mecanismo de Ajustamento das Emissões de Carbono nas Fronteiras, a famosa taxa de carbono nas fronteiras da Europa, que nos permitirá fazer a transição [verde] para todas as nossas indústrias, preservando a nossa competitividade,

https://pt.euronews.com/2021/12/09/seis-prioridades-de-emmanuel-macron-para-a-presidencia-francesa-da-ue

Assim Macron quer criar no espaço Europeu o mercado de créditos de carbono. O IMPAM tem uma cartilha que explica o que é esse tal Mecanismo de Ajustamento das Emissões de Carbono

Países do Anexo I (basicamente os desenvolvidos) que tiverem limites de emissões sobrando (emissões permitidas, mas não usadas) podem vender esse excesso para outras nações do Anexo I que estão emitindo acima dos limites.

Uma das principais corretoras para o comércio de emissões é a European Climate Exchange

https://ipam.org.br/cartilhas-ipam/o-que-e-e-como-funciona-o-mercado-de-carbono/

Temos aqui a pagina dessa European Climate Exchange e aqui a regulamentação da UE sobre o assunto. A criação de um mercado de carbono, nada surpreendente, a UE frente a eminencia de extinção da humanidade pelo aquecimento global, resolve entregar a gestão das emissões de carbono a , como dizia Einstein, anarquia econômica da sociedade capitalista. Sendo essa uma das prioridades da presidencia rotativa da França sob a gestão de Macron. Essa prioridade não deixa de estar em acordo com os principios do Green New Deal, veja o artigo -Aquecimento Global e a destruição das forças produtivas- Ciência dos Trabalhadores numero 1

  • Transformação digital à cabeça das prioridades

Visitando mais uma vez o site do parlamento Europeu vemos que essa politica para a segurança digital trata-se de

reforçar as capacidades da Europa e abrir novas oportunidades para empresas e consumidores

https://www.europarl.europa.eu/news/pt/headlines/priorities/transformacao-digital/20210414STO02010/transformacao-digital-importancia-beneficios-e-politica-da-ue

  •  Estado de Direito “não é negociável”

Frente a implacável repressão da recente greve dos ferroviários (veja aqui) e a onda de greves que se prepara na França (v aqui). Imaginemos que Estado de Direito seja sinônimo de ambiente tranquilo para empresas e consumidores.

Esse conceito -Estado democratico de direito- é um verdadeiro fetiche, uma palavra vazia que na cabeça da burguesia significa bons ambientes para negocios e não mais que isso! O texto da falecida revista Ciência & Revolução mostra claramente o papel da governança capitalista na Zona do Euro, não é mais do que uma blindagem das instituições e do Estado contra as pressões populares. No Brasil a regulamentação fiscal ocupa um papel parecido.

A cúpula pela “Democracia” de Biden- Um momento de reposicionamento do Imperialismo após diversas revezes

O imperialismo mais poderoso do Mundo, passa em revista as suas forças na cupula convocada por Biden. Bolsonaro foi um dos convidados, mesmo após a derrota de sua principal missão no continente Sul Americano; derrubar o governo de Maduro; Bolsonaro continua sendo um importante aliado na guerra comercial contra a China e Rússia no continente. O mandato do próprio Biden na frente da Casa Branca é expressão de uma nova orientação da burguesia imperialista Estado-Unidense, após o fracasso de Trump e sua declarada truculência. A burguesia imperialista resolveu repensar suas ações no mundo, como mostrou a falecida revista Ciencia & Revolução no artigo –Davos , FMI e o Dificil equilibrio do sistema– onde relata-se os debates que tiveram lugar no Cupula de Davos de 2020. Essa Cupula pela democracia, realizada no inicio de dezembro de 2021 , não teve declaração final. Contudo, foram listadas algumas medidas concretas:

1. Apoiar a imprensa independente

– Criação do Fundo Internacional para a Mídia de Interesse Público, voltado para ajudar meios de comunicação a se manterem. Aporte inicial será de US$ 30 milhões

– Criação do Fundo de Defesa contra a Difamação para Jornalistas, para ajudar profissionais a se defenderem de ataques físicos, virtuais e de ações na Justiça. Aporte inicial de US$ 9 milhões, e de mais US$ 3,5 milhões para criar uma Plataforma de Proteção ao Jornalismo.

2. Combater a corrupção

– Formação de um Consórcio Global Anti-Corrupção, com participação do Departamento de Estado e verba inicial de US$ 6 milhões, com objetivo de conectar e apoiar jornalistas e entidades civis que fiscalizam gastos públicos.

– US$ 5 milhões em um programa de proteção para delatores, ativistas, jornalistas e outros agentes anti-corrupção em risco.

– Mudanças para ampliar a transparência de negócios nos EUA, como a compra de imóveis em dinheiro vivo, de modo a dificultar lavagem de recursos.

– Criação de programas de parcerias com empresas e ONGs para criar novos mecanismos de fiscalização.

3. Ampliar participação democrática

– US$ 33,5 milhões em uma iniciativa para ampliar a presença de mulheres na política. Haverá também um fundo de US$ 5 milhões para a inclusão e empoderamento de pessoas LGBTQIA+.

– US$ 10 milhões para apoiar entidades civis e de direitos humanos em risco

– US$ 122 milhões para ajudar trabalhadores pelo mundo a reivindicarem seus direitos

4. Avançar em tecnologias

– Defender o modelo de internet aberta, segura e estável e expandir iniciativas digitais de promoção de valores democráticos.

– Medidas para impedir o uso da internet para desrespeitar direitos humanos. Haverá US$ 4 milhões para um fundo destinado ao combate da censura.

5. Defender eleições livres

– US$ 2,5 milhões para uma Coalizão para Assegurar Integridade Eleitoral, que unirá governos e ONGs.

– US$ 17,5 milhões para um Fundo de Defesa de Eleições Democráticas, para buscar soluções de combate à tentativas de desacreditar votações.

Os itens. levantados por Biden parecem óbvios, financiar os aliados dos interesses da burguesia Estadounidense pelo mundo, generalizar operações tipo lava jato, cooptar movimentos independentes, que reivindiquem direitos justos, porém sem conseguirem compreender o papel do imperialismo na negação a estes mesmos direitos e um mecanismo fundamental nesse dispositivo são as Organizações Não Governamentais. A estratégia é cooptar, pois a repressão aberta e simples não funcionou, então arrancar do movimento operário e das organizações populares a sua independência é a tarefa que Biden coloca. Agora é necessário encontrar lideres operários, camponeses e populares, que em nome do suposto pragmatismo, concordem em abrir mão de sua independência politica para serem agentes, mesmo que inconscientes, do imperialismo dos EUA.

Voltaremos a essa questão.

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

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