Entrevista com Gabriel Araujo: A luta por despejo zero

Há alguns meses o companheiro Gabriel Araújo do Movimento Nacional de Luta por Moradia escreveu uma carta de resposta à carta aberta da companheira Ediane Tibes ao presidente Lula. Nunca tivemos a oportunidade de escrever uma réplica ao companheiro Gabriel, depois de diversas tentativas de compatibilização, combinamos um debate com o camarada ao qual reproduzimos alguns extratos abaixo.

C&T: Companheiro Gabriel Araújo, em sua carta a companheira Ediane Tibes você escreve:

O Presidente Lula, tem seu lastro político advindo de uma segmento totalmente distinto dos demais candidatos da esquerda. Lula tem de prestar constas à sua base social, ele emerge de um proletariado e de um campesinato completamente explorado e massacrado pelo imperialismo, que tem uma forte propensão revolucionária e que constituiu organizações sólidas e com determinada margem de autonomia política ante a burguesia. E são estes que possuem legitimidade e autoridade (organizativa, política e científica) histórica para impor ao Presidente Lula, um programa nacionalista e um governo de trabalhadores. E são à estes, que devemos dedicar todo o nosso dispêndio de forças. Pois apenas eles, podem reverter esse quadro de limitação do reformismo, bem como, da própria política econômica neoliberal, do imperialismo.

https://cienciadostrabalhadorespt.com/2021/11/18/gabriel-araujo-carta-aberta-a-companheira-ediane-tibes-%ef%bf%bc/

Como seria possível para alguém do perfil militante da companheira Ediane, mãe, viúva, com três crianças, batalhando grana para sustentar a casa, chocar-se com o aparelho dirigente do PT? Como que é possível para gente como nós pressionarmos o presidente Lula para atender nossas demandas?

Gabriel:

É um importante passo apoiar a candidatura do presidente Lula. Ele, o presidente Lula, vai querer conciliar mais com a burguesia nacional do que com a imperialismo. Contudo a questão é complicada, vem ai um choque de juros do Banco Central dos EUA, a última vez que algo assim aconteceu tivemos uma explosão de dívida nos países da América Latina(ver aqui , aqui e aqui, )então inevitavelmente o presidente Lula vai entrar em uma rota de enfrentamento com o imperialismo, mesmo que num grau bem moderado. A questão da pressão da luta anti-imperialista é fundamental, vai sair um editorial do Voz Operária (ver aqui), abordando o problema de um programa anti-imperialista.

O programa dos Marxistas não é o programa do Lula. Os comunistas podem avançar mais concretamente. A questão do choque de juros é chave, esse choque vai atingir o agronegócio brasileiro e pode liquidar de vez com o pouco de indústria que resta no pais . Uma redistribuição de renda não seria suficiente, diante do deterioramento da política monetária e portanto da liquidez do país. É preciso um programa mais profundo que isso. E o aparelho burocrático do PT, que quer a conciliação com os golpistas e com o próprio imperialismo já percebeu isso, veja o ataque do DCM ao PCO, e a Gleise defendendo o Boulos quanto a vinculação dele com o imperialismo. A militância anti-imperialista está sendo atacada, e parte da esquerda está sendo cooptada pelo imperialismo, para fazer um papel de tropa de choque do neoliberalismo.

O único sentido é que haja um enfrentamento, um enfrentamento via mobilização da classe trabalhadora em torno de um programa anti-imperialista. Não dá para pensar em ações de indivíduos, pois sozinhos, pessoas como a companheira Ediene, tem pouca força. Mas unificados e com instâncias de aglutinação com um funcionamento mínimo, podem intervir enquanto classe, na situação política. 

Antigamente o PT tinha núcleos de base e isso era a força do partido, agora está sendo proposto a criação de 5000 Comitês Lula Presidente, em uma perspectiva de pauta identitária. Isso precisa ser desmascarado, precisa ser demonstrado que as questões concretas é que precisam ser resolvidas, e não questões de cunho abstrato e secundário. O PT criou até setorial de defesas de animais, enquanto isso, 120 milhões não sabem o que vão ter pra comer no horário da próxima refeição. Isso é ridículo! 

Aqui na minha cidade tivemos três recentes ocupações, e choveu gente na ocupação. O povo está ai e está pronto pra lutar. É nossa tarefa, enquanto marxistas, criar mecanismos para canalizar essa disposição.

C&T: Tudo bem, você coloca questões importantíssimas, mas como? Como organizar este povo, como enfrentar um aparelho que tenta a todo custo dizer que a única saída é a eleição e que tem que esperar a eleição? Como enfrentar esse processo de mobilização dos 5000 comitês eleitorais? Como enfrentar essa ilusão nas instituições?

Gabriel:

O Bloco Vermelho, que se formou durante o ano passado, foi um importante avanço em relação à isso. Aglutinou os elementos mais conscientes e antes mesmo do próprio PT definir pela criação dos comitês de cunho eleitoral, o Bloco Vermelho já havia definido pela criação de 1.000 Comitês Lula Presidente, com uma perspectiva de convocar as massas populares para intervir de fato na situação política. Um caráter completamente distinto ao que se tem hoje, que é apenas visando a eleição, trocando a política concreta pelo marketing eleitoral tosco.

Se essa política eleitoreira e de marketing vai se impor ou não, isso não dá para prever. De toda forma, travar uma luta para que isso não se imponha, pode ser construtivo e pedagógico para avançar na dimensão que os revolucionários reivindicam. Uma luta tenaz, as vezes é mais produtiva do que uma vitória fácil, já diria o camarada Engels em seu texto sobre a revolução e contra-revolução na Alemanha. Precisamos desembainhar nossas espadas. Explicar para o povo o que ocorre no país. E nesse caso, os comitês podem ser esse espaço para travar essa luta, e essa revista, o jornal da Voz Operária, entre outros mecanismos operários de comunicação, podem ser essa ferramenta de esclarecimento e orientação para as massas que se encontraram presentes nos comitês.

C&T: Como você vê essa política de cooptação das organizações operarias e populares a partir de ONGS?

Olha eu vejo um enorme abismo entre a atual direção e a base, hoje a atual direção persegue os militantes que tem uma postura anti-imperialista. Isso precisa ficar claro! Toda a tentativa de organização independente dos trabalhadores é sabotada por dentro das mais diversas formas. Quando você anda pelo movimento vê em diversos lugares o logotipo da fundação FORD e de outras fundações até mesmo da União Europeia. Isso é impressionante! Existe um ataque sério a independência financeira e política do movimento, que vai piorar com as cifras que o Biden está prometendo investir nessas ongs e que vocês repercutiram.

C&T: Qual balanço você faz do ano de 2021?

Gabirel: 

Achei muito importante a matéria de balanço que vocês fizeram sobre a greve sanitária, acho real o que vocês dizem, mas tenho uma diferença, acho que devíamos ir pra rua e não ficar em casa e vocês colocaram que isso era uma tática suicida. Vocês mesmos levantaram que o povo estava sendo infectado no transporte público, então temos que ir pra cima. Agora sim, a direção não organizou uma greve sanitária e as mobilizações que existiram foram implodidas por dentro.

Uma coisa que notei, foi o medo das instituições em relação a mobilização popular. A campanha despejo zero, estima que 400 mil pessoas e 123 mil famílias, estão correndo risco de despejo no país. Além disso, o orçamento de moradia, saiu de R$20,9 bilhões em 2015 para R$800 milhões em 2021. Não houve um levante contra o fim da política habitacional no país, isso foi um grande equívoco, porque grande parte da população não tinha condições de fazer isolamento social. Isso se soma, ao fim do auxílio emergencial, que foi definhando sistematicamente, com cortes sucessivos. E o fim do bolsa família, e a criação do auxílio Brasil. Diversas pessoas que precisavam adentrar nesse programa, que recebiam anteriormente o auxílio emergencial, ficaram de fora, e 3 milhões que estavam na fila do Bolsa Família, também ficaram de fora. Soma-se a essa questão, o fato também de que 67,2% das negociações salariais ficaram abaixo do percentual da inflação.

O parlamento e o judiciário, com medo do início de um processo de insurreição popular diante disso, da fome e do desemprego, resolveu proibir determinados despejos. A medida havia se encerrado em dezembro, mas foi prorrogada, mesmo não havendo uma mobilização (apesar de que havia uma indicação de início de mobilização entorno disso). Acredito que os órgãos de inteligência e repressão, informaram as referidas autoridades ilegítimas, e as mesmas notando a possibilidade de perder o controle da situação, resolveram tomar algumas medidas para aliviar a pressão.

Agora teremos uma mobilização contra os despejos no dia 17 de março. As organizações populares de luta pela terra e por moradia, estão mobilizando suas bases. Se for conquistada a prorrogação da medida, será uma vitória do movimento popular e da mobilização, e que se tiver continuidade para reivindicar outras pautas, pode ser o início de um amplo movimento que arraste outros setores da classe trabalhadora e que poderá desestabilizar o regime político golpista que nos impõe essa política neoliberal de fome, repressão e despejo.

C&T: Mas você veja, a direção não organizou greve sanitária, antes da pandemia o grande ascenso de massas que tivemos foi o tsunami da educação, que foi paralisado pela direção para ouvir a Vaza jato. Então qual trabalhador iria para a rua agora diante dessa paralisia, diante da situação de que já foi pra rua outras vezes e a direção paralisou o movimento quando quis? Sem contar que a palavra de ordem Fora Bolsonaro era uma boia de salvação para as instituiçõesVenderam a ilusão de que a CPI da pandemia resolveria algo e obviamente as instituições golpistas não resolveram nada. Volto aqui a questão. Vivemos um tipo de Ilusões Constitucionalistas?

Gabriel:

A política não nos permite, aos marxistas-leninistas, acreditar que a burocracia dos movimentos populares e sociais, se encontram em uma condição de ilusão. Estão claramente cooptados. Já são quase seis anos de regime político golpista, que nos impõe a fome, a destruição da indústria nacional, etc. As massas, no Tsunami da Educação, na Greve Geral de 2017, nas mobilizações contra o fascismo em 2020, mostram claramente uma disposição de enfrentar a direita golpista e os fascistas. O grande problema, é que essa burocracia quer acordos com os golpistas. E é ai que devemos atacar, porque será através de uma ruptura com essa perspectiva, que vamos dar vazão à este descontentamento popular e a disposição de luta do povo trabalhador, que não suporta mais ser esmagado.

C&T: Um problema que para nós é caro é o problema da perseguição política. Como você vê que as organizações deveriam enfrentar objetivamente este problema?

Gabriel:

As organizações caíram em uma política covarde, abandonaram seus militantes à própria sorte e aceitaram que os mesmos fossem perseguidos. Até o Presidente Lula foi abandonado por essa burocracia. O maior exemplo dessa capitulação e da farsa da luta contra a perseguição política, é o caso da pseudo-revogação da Lei de Segurança Nacional. A substância repressiva da Lei de Segurança Nacional, se manteve na lei que à substituiu. Entrando naquela questão de trocar a política pelo marketing, apenas fazendo manobras para inglês ver, enquanto a essência reacionária se mantém.

As organizações deveriam implementar uma política de formação de comitês de autodefesa, que defendessem seus quadros, com ações jurídicas, financeiras, psicológicas, mobilizações, instruções de defesa pessoal, debater o conteúdo da dialética da violência e do monopólio desta última. Mas o que se observou, é que a burocracia apenas se preocupou em manter seus privilégios, sua condição pequeno burguesa, seus empregos e etc. O orçamento dos sindicatos praticamente desapareceu e não fizeram nada para reverter essa situação, seja pela revogação da reforma trabalhista, ou por meio de campanhas por outra plataforma de arrecadação. Uma posição tão patética, só pode advim de uma posição de capitulação e cooptação por parte do regime golpista.

C&T: Você comprou a nossa revista número 01 “Quem é o culpado pela pandemia?”, O que achou?

Gabriel:

Uma publicação extremamente importante, primeiramente para demonstrar para a burguesia e para a pequena burguesia, que pensam que os trabalhadores não possuem capacidade intelectual e são pessoas de segunda categoria, que os trabalhadores e o marxismo-leninismo, são respectivamente, a única camada verdadeiramente científica e por conseguinte, revolucionária, nos marcos da sociedade atual.

Em segundo lugar, indo no sentido do que falei anteriormente, como não tem possibilidade de existir ciência sem que exista transformação da realidade concreta, a característica de defesa dos perseguidos pelo imperialismo, se torna na comprovação do conteúdo científico da revista, de busca na transformação da realidade através da autodefesa dos trabalhadores. E também revelar para a população quem são os verdadeiros responsáveis pela pandemia, também comprova essa questão da ciência dos trabalhadores ser um guia para a ação, fundamentada em investigações da realidade concreta para a transformação desta última.

O imperialismo monopolizou as vacinas, os testes, e fez demagogia com o tal isolamento social, entre outras coisas fundamentais para que vidas fossem salvas. Logo, ter uma publicação voltada para o esclarecimento sobre essa situação, foi muito importante para combater o senso comum e o apologismo anti-científico, que se tornou a regra durante a pandemia, pelos monopólios de comunicação e as instituições acadêmicas da burguesia.

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

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