O que é o imperialismo? parte 3: A Oligarquia financeira

O que caracterizava o velho capitalismo, no qual predominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias . O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capitais

Vladimir Lenin-IMperialismo Fase Superior do Capitalismo- Editora Nova Palavra (2007) pagina 73

Retomamos, após longo período, nossa serie -O que é o Imperialismo?- nas duas partes anteriores parte 1, onde enunciamos as características desta época e começamos a discussão do papel dos monopolios e na parte 2 discutimos o papel central dos bancos. Em diversos outros textos abordamos temas ligados a concepção Leninista de Imperialismo, em particular no texto acerca do suposto imperialismo Russo.

Entender o imperialismo, um verdadeiro problema de orientação

Neste texto, vamos revisitar o capítulo -O papel da oligarquia financeira- , pretendíamos na verdade , debater o tema da exportação de capitais, porem o surgimento do termo oligarquia na grande imprensa obrigou-nos a mudar nossos planos editoriais, não é a primeira vez que isso ocorre e não será a ultima. Ambos os temas, são intimamente ligados e estão em alta recentemente por conta da escalada de guerra que atinge a Europa do Leste, devido a enorme crise de desagregação do mercado mundial, a qual esta confrontada a burguesia mundial em que repercutimos aqui e aqui a necessidade que a principal burguesia imperialista têm de destruir maciçamente capitais menos rentáveis (v aqui e aqui). E essa destruição maciça, pode ocorrer por desvalorização, ou por guerra. Esse entendimento, o entendimento de que a burguesia imperialista dos EUA é a força organizada mais poderosa do planeta, sob a qual todas as outras forças do planeta estão orientadas é o entendimento fundamental. A única força capaz de mudar essa disposição de forças no tabuleiro mundial da luta de classes, é a classe operaria, que não possui um nivel organizacional a altura da burguesia imperialista dos EUA, embora seja um permanente problema, a qual a burguesia imperialista precisa o tempo todo dedicar sua atenção. Neste sentido, entender o papel das principais burguesias imperialistas é uma condição fundamental para determinar a melhor orientação para a classe operária, sem entender de onde vira o próximo ataque, quem é capaz de oferecer maiores danos a classe trabalhadora, teremos orientações desastradas, que levarão a classe operária a se submeter a níveis ainda maiores de exploração.

Este tema foi parcialmente tratado no texto 2 e na Resposta a Rodrigo Silva onde tratamos do problema da frente única anti-imperialista, que é uma linha de unidade dos trabalhadores contras o imperialismo, pautado basicamente em uma plataforma de defesa de reivindicações ligadas a soberania nacional e a autodeterminação dos povos. Temas complexos, que merecem serem tratados em espaços próprios.

Outra coisa que precisamos reafirmar, ou esclarecer, é que imperialismo é uma época , mesmo aqui na revista usamos eventualmente a palavra imperialismo em um sentido um pouco diferente, como no próprio slogan da revista “Em defesa de todos os perseguidos pelo imperialismo“, em casos como este , estamos abusando da palavra imperialismo para nos referirmos a principal burguesia imperialista, a burguesia dos EUA ou a alguma outra das três burguesias imperialistas menores(britânica, francesa e alemã), ou ainda a alguma instituição que cumpra algum papel de congregar as principais burguesias para algum interesse especifico.( exemplo: ONU, OTAN, UE ).

O Capital financeiro e a Oligarquia financeira

Este tema foi parcialmente tratado no texto 2 onde foi mostrado o gráfico abaixo

Esse gráfico mostra a hipertrofia do capital financeiro em detrimento da produção.

Em imperialismo fase superior do capitalismo Lenin comenta:

“Uma parte cada vez maior do capital industrial – escreve Hilferding – não pertence aos industriais que o utilizam. Podem dispor do capital unicamente por intermédio do banco, que representa, para eles, os proprietários desse capital. Por outro lado, o banco também se vê obrigado a fixar na indústria uma parte cada vez maior do seu capital. Graças a isto, converte-se, em proporções crescentes, em capitalista industrial. Este capital bancário – por conseguinte capital sob a forma de dinheiro -, que por esse processo se transforma de fato em capital industrial, é aquilo a que chamo capital financeiro.” “Capital financeiro é o capital que se encontra à disposição dos bancos e que os industriais utilizam.”

https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/cap3.htm

Esse curto trecho ja desmonta a acusação dirigida a Lenin, repercutida por nós aqui, que supostamente estaria dizendo que o capitalismo não precisa mais da produção, ao contrario Lenin detecta uma fusão do capital bancário com o capital industrial. Mostrando mais uma vez o erro de seus acusadores.

Continuamos com Lenin:

Concentração da produção; monopólios que resultam da mesma; fusão ou junção dos bancos com a indústria: tal é a história do aparecimento do capital financeiro e daquilo que este conceito encerra.

Acreditamos que esse trecho põe por terra, todos os argumentos que tentam atacar Lenin por tentar deslocar a produção de seu papel de gerador riqueza. Neste capitulo, mais a frente Lenin começa a explicar o conceito de parasitismo. Antes disso, Lenin critica o conceito de participação, que hoje é usado em muitas empresas, a famosa participação nos lucros:

Com efeito, a experiência demonstra que basta possuir 40% das ações para dirigir os negócios de uma sociedade anônima(4a), pois uma certa parte dos pequenos acionistas, que se encontram dispersos, não tem na prática possibilidade alguma de assistir às assembléias gerais, etc. A “democratização”, da posse das ações, de que os sofistas burgueses e os pretensos “sociais-democratas” oportunistas esperam (ou dizem que esperam) a “democratização do capital”, o aumento do papel e importância da pequena produção, etc., é na realidade um dos meios de reforçar o poder da oligarquia financeira. Por isso, entre outras coisas, nos países capitalistas mais adiantados ou mais velhos e “experimentados”, as leis autorizam a emissão de ações mais pequenas. Na Alemanha, a lei não permite ações de menos de 1000 marcos, e os magnatas financeiros do país lançam os olhos com inveja para a Inglaterra, onde a lei consente ações até 1 libra esterlina (quer dizer, 20 marcos, ou cerca de 10 rublos). Siemens, um dos industriais e “reis financeiros” mais poderosos da Alemanha, declarou em 7 de junho de 1900, no Reichtag, que “a ação de 1 libra esterlina é a base do imperialismo britânico”(5a). Este negociante tem uma concepção consideravelmente mais profunda, mais “marxista”, do que é o imperialismo do que certo escritor indecoroso que se considera fundador do marxismo russo(18) e supõe que o imperialismo é um defeito próprio de um povo determinado …

Lenin comenta aqui acerca de Kaustky , as polemicas de Lenin e Kuastky também voltarão a serem discutidas aqui no futuro

Mas o “sistema de participação” não só serve para aumentar em proporções gigantescas o poderio dos monopolistas, como, além disso, permite levar a cabo impunemente toda a espécie de negócios escuros e sujos e roubar o público, pois os dirigentes das “sociedades-mães”, formalmente, segundo a lei, não respondem pela “sociedade-filha”, que é considerada “independente” e através da qual se pode “fazer passar” tudo. Eis um exemplo tirado da revista alemã Die Bank, no seu número de Maio de 1914:

“A Sociedade Anônima de Aço para Molas, de Cassel, era considerada há uns anos como uma das empresas mais lucrativas da Alemanha. Em conseqüência da má administração, os dividendos desceram de 15 % para 0 %. Segundo se pôde comprovar depois, a administração, sem informar os acionistas, tinha feito um empréstimo de 6 milhões de marcos a uma das suas ‘sociedades-filhas’, a Hassia, cujo capital nominal era apenas de algumas centenas de milhares de marcos. Esse empréstimo, quase três vezes superior ao capital em ações da ‘sociedade-mãe’, não figurava no balanço desta: juridicamente, tal silêncio estava perfeitamente de acordo com a lei e pôde durar dois anos inteiros, pois não infringia nem um único artigo da legislação comercial. O presidente do conselho de administração, a quem nessa qualidade incumbia a responsabilidade de assinar os balanços falsos, era e continua a ser presidente da Câmara de Comércio de Cassei. Os acionistas só se inteiraram desse empréstimo à Hassia muito tempo depois, quando se verificou que o mesmo tinha sido um erro… ” (o autor deveria ter posto esta palavra entre aspas) … “e quando as ações do ‘aço para molas’, por aqueles que tinham conhecimento disto se começarem a desfazer delas, diminuíram o seu valor em aproximadamente 100 % .

Finalmente a concepção do capital financeiro como um parasita da produção começa a aparecer

O capital financeiro, concentrado em muito poucas mãos e gozando do monopólio efetivo, obtém um lucro enorme, que aumenta sem cessar com a constituição de sociedades, emissão de valores, empréstimos do Estado, etc., consolidando a dominação da oligarquia financeira e impondo a toda a sociedade um tributo em proveito dos monopolistas. Eis um dos exemplos dos métodos de “administração” dos trusts americanos, citado por Hilferding: em 1887, Havemeyer constituiu o trust do açúcar mediante a fusão de 15 pequenas companhias, cujo capital total era de 6.500.000 dólares. Mas o capital do trust, “aguado”, segundo a expressão americana, fixou-se em 50 milhões de dólares. A “recapitalização” tinha em conta de antemão os futuros lucros monopolistas, do mesmo modo que o trust do aço – também na América – tem em conta os futuros lucros monopolistas ao adquirir cada vez mais jazigos de minério de ferro. E, com efeito, o trust do açúcar fixou preços de monopólio e recebeu lucros tais que pôde pagar um dividendo de 10 % ao capital sete vezes “aguado”, quer dizer, quase 70 % sobre o capital efetivamente investido no momento da constituição do trust! Em 1909, o seu capital era de 90 milhões de dólares. Em vinte e dois anos o capital foi mais do que decuplicado.

Portanto , esse capital financeiro, existe amparado , ou melhor hospedado na produção, em na parte 2 , nós adiantamos que o capital financeiro é , hoje em dia, mais atraente do que a produção, opondo concorrência então ao seu próprio hospedeiro.

Os lucros excepcionais proporcionados pela emissão de valores, como uma das operações principais do capital financeiro, contribuem muito para o desenvolvimento e consolidação da oligarquia financeira. “No interior do país não há nenhum negócio que dê, nem aproximadamente, um lucro tão elevado como servir de intermediário para a emissão de empréstimos estrangeiros” – diz a revista alemã Die Bank

Lenin cita um exemplo que parece muito atual, a especulação imobiliária

Uma das operações particularmente lucrativas do capital financeiro é também a especulação com terrenos situados nos subúrbios das grandes cidades que crescem rapidamente. O monopólio dos bancos funde-se neste caso com o monopólio da renda da terra e com o monopólio das vias de comunicação, pois o aumento dos preços de terrenos, a possibilidade de os vender vantajosamente por parcelas, etc., dependem principalmente das boas vias de comunicação com a parte central da cidade, as quais se encontram nas mãos de grandes companhias, ligadas a esses mesmos bancos mediante o sistema de participação e da distribuição dos cargos diretivos. Resulta de tudo isso o que o autor alemão L. Eschwege, colaborador da revista Die Bank, que estudou especialmente as operações de venda e hipoteca de terrenos, qualifica de “pântano”: a desenfreada especulação com os terrenos dos subúrbios das cidades, as falências das empresas de construção, como, por exemplo, a firma berlinense Boswau & Knauer, que tinha embolsado uma quantia tão elevada como 100 milhões de marcos por intermédio do banco “mais importante e respeitável”, o Banco Alemão (Deutsche Bank), que, naturalmente, atuava segundo o sistema de “participação”, isto é, em segredo, na sombra, e livrou-se da situação perdendo “apenas” 12 milhões de marcos; depois, a ruína dos pequenos patrões e dos operários, que não recebem nem um centavo das fictícias empresas de construção; as negociatas fraudulentas com a “honrada” polícia berlinense e com a administração urbana para ganhar o controlo do serviço de informação sobre os terrenos e das autorizações do município para construir, etc., etc.(15a).

Queremos ressaltar que o Imperialismo fase superior do capitalismo, foi publicado em 1916. 90 anos antes da crise sub-prime nos EUA, muito antes do problema da especulação imobiliaria aparecer aqui no Brasil , na forma dramática que aparece hoje. Assim o papel da Oligarquia financeira é um papel parasitário, são parasitas da produção, nos próximos capitulos Lenin aprofunda essa tematica

A Oligarquia Russa

Recentemente com a guerra na Ucrania o termo Oligarquia Russa começou a ser ventilado na grande imprensa v aqui , inclusive com uma serie de sanções contra estes oligarcas, que possuem bens nos países imperialistas, os países imperialistas de verdade, não os supostos. A CNN Explica o aparecimento da Oligarquia Russa :

Yeltsin decidiu transformar a economia socialista russa em economia de mercado e assim o fez com programas de privatização e liberalização da economia, numa autêntica terapia de choque.

O seu opositor Alexander Rutskoi insuflou uma insurreição contra a forma como Yeltsin estava conduzindo o processo de reformas, até mesmo o chamando de “genocídio econômico”.

É com as reformas de Yeltsin que surge a nova oligarquia. Agora já não é o partido, nem o Politburo, quem irá deter o poder, mas sim um grupo restrito de pessoas que vão aproveitar da situação para se apoderar de grande parcela da riqueza nacional.

Essas pessoas constituem a nova oligarquia russa. Tornam-se milionárias através de situações pouco claras. Aliás, a época de Yeltsin é marcada por uma corrupção generalizada, inflação, colapso econômico e profundos problemas sociopolíticos.

assim, hoje a oligarquia Russa, surge da restauração do capitalismo no Leste Europeu, restauração, que nós também já debatemos aqui e aqui . E que foi amplamente saudada pelo dito Ocidente. Alias, a Oligarquia Russa concentra uma das principais características do parasitismo capitalista. Que é a necessidade que os capitalistas têm de infligirem as leis que foram criadas nos próprios parlamentos burgueses, pois muitas dessas leis foram criadas por pressão ou concessão à classe trabalhadora organizada. Constituindo, portanto, uma verdadeira barreira para a realização da taxa de lucro destes capitalistas. Neste sentido, a destruição de nações inteiras como a Iuguslavia, o Iraque e o Afeganistão, são os casos mais avançados da necessidade da burguesia de eliminar essas barreiras aos seus lucros. Voltaremos a este ponto quando tratarmos do parasitismo capitalista em especifico.

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

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