Lula Livre? Lula esta realmente Livre?

No mês de abril existem três datas ligadas a luta contra a perseguição politica. O primeiro de abril, que foi a data do golpe militar de 1964, o dia 10 de abril de 2006 quando foi assassinado, na Baixada Fluminense-RJ, o presidente do sindicato dos Frios do RJ, o companheiro Anderson Luis Souza Santos e no dia 7 de abril de 2018, presidente Lula foi preso nos marcos da operação Lava jato.

Pretendemos nesse texto retomar a discussão aberta no texto no em O Partisano(O que fazer para defender a militancia da perseguição politica?, onde foi discutido alguns exemplos de iniciativas de combate a perseguição politica, a versão ebook desta revista também foi lançada com a intenção de arrecadar para um fundo de auto-defesa dos militantes, um fundo que pudesse ser acessado e patrocinasse a defesa de militantes perseguidos. O problema da perseguição apareceu também em textos da tribuna livre da luta de classes, embora sem uma devida sistematização. Tentamos retomar este tema neste texto. Retomamos então a elaboração acerca do problema da perseguição politica e os limites de atuação das organizações dos trabalhadores nos marcos do Estado burguês.

O assassinato de Anderson Luis

A morte do camarada Anderson foi um das enumeras mortes de de lideranças populares durante os mandatos do PT, algumas dessas mortes foram relatadas no livro Plantados no Chão. Esses assassinatos são a prova da falha das direções do PT em defender sua base militante e, ao mesmo tempo, uma inequívoca demonstração da adaptação da direção do partido as instituições da republica, que reprimem e legitimam a repressão contra os trabalhadores. Repressão que nunca teve seu aparelho desmontado, ver aqui a criação da comissão da verdade, que teve sua atuação sabotada de todas as formas. Porem, essa perseguição não ficaria restrita a base, entre 2006 e 2018 vimos uma escalada de perseguição ao PT, até alcançar as lideranças mais importantes do partido, essa escalada de perseguição contra o partido crescia a cada ano, no mesmo passo que crescia a marcha da decomposição do modo de produção capitalista em escala planetária, obrigando as diversas burguesias a aumentarem cada vez mais o nível de exploração dos trabalhadores, a ponto de exigirem que as organizações dos trabalhadores legitimassem a ação dos perseguidores e isso não apenas no Brasil.

A consequência da repressão ao movimento operário em todo o planeta

O gráfico abaixo, repercutido pelo blog As Novidades de Sempre, mostra a impressionante queda no numero de greves nas economias mais importantes do Mundo.

Fonte Primaria aqui

Alguns comentários acerca do gráfico, quando olhamos para o ano de 1912, pouco antes da primeira guerra, período entre 1925 e 1926, período também anterior a segunda guerra, vemos os menores números de greves pelo mundo, o que indica que uma guerra é antecedida pela derrota do movimento operário. No pós guerra uma verdadeira explosão de greves, que coincide inclusive com as previsões de Leon Trotsky , quanto à eminencia da revolução no imediato pós guerra.

O mundo capitalista já não tem saída, a menos que se considere saída a uma agonia prolongada. É necessário preparar-se para longos anos, senão décadas, de guerras, insurreições, breves intervalos de trégua, novas guerras e novas insurreições. Um partido revolucionário jovem tem que apoiar-se nesta perspectiva. A história lhe dará suficientes oportunidades de provar-se, acumular experiência e amadurecer. Quanto mais rapidamente se unifique a vanguarda mais breve será a etapa das convulsões sangrentas, menor a destruição que sofrerá nosso planeta. Mas o grande problema histórico não se resolverá de, nenhuma maneira, até que um partido revolucionário se ponha à frente do proletariado. O problema dos ritmos e dos intervalos é de enorme importância, mas não altera a perspectiva histórica geral nem a orientação da nossa política. A conclusão é simples: há que se levar adiante a tarefa de organizar e educar a vanguarda proletária com uma energia multiplicada por dez. Este é precisamente o objetivo da Quarta Internacional.

https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1940/05/manifesto.htm

O numero de greves estaciona em um patamar alto por toda a década de 1950, tem nova alta na década de 1960, estabelecendo um novo patamar, ainda mais alto que da década anterior. Um novo pico é detectado em 1978, após isso, vemos uma enorme queda no numero de greves no Mundo. Apesar da queda do numero de greves no mundo, a situação econômica da maioria dos trabalhadores não melhorou(v aqui), ao contrario, piorou muito, logo as direções sindicais passaram a aceitar condições de trabalho que antes não aceitavam. Esses dados são referentes aos países mais avançados do capitalismo. Países, autoproclamados democráticos, portanto, onde a repressão ao movimento sindical e operário não é aberta, ou seja, onde formalmente não existe perseguição politica. Na verdade, os dados também poderiam ser estendidos a revoluções, a ultima revolução popular de que temos noticia é a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974. Depois disso, um absoluto silencio conivente das direções sindicais, uma incapacidade profunda de mobilizar os trabalhadores e uma tremenda repressão ao movimento de uma forma bastante mais sutil do que a forma convencional. Embora, ninguém esperasse que o status quo do modo de produção capitalista assumisse abertamente a repressão contra os trabalhadores, como faz um vilão de filmes infantis. Na verdade consideramos que a situação é mais parecida com o que definiu Leon Trotsky:

No decurso de várias dezenas de anos os operários construíram no interior da democracia burguesa, utilizando – e, ao mesmo tempo, lutando contra ela – seus bastiões, suas bases, seus focos de democracia proletária: os sindicatos, os partidos, os clubes de formação, as organizações desportiva, as cooperativas, etc.

Contudo, a atuação destes bastiões de democracia proletaria no interior da sociedade capitalista ocorre dentro das normas e regras estabelecidos pela burguesia. O que leva Trotsky a constatar:

O fato de que a passagem da democracia para o fascismo possa ter um caráter ‘orgânico’  ou ‘progressista’ (Nota de C&R: aqui eles quis dizer que a passagem entre democracia e fascismo pode ser contínua e coerente; portanto, progressiva e não progressista) não significa evidentemente nada de diferente, a não ser que seja impossível retirar ao proletariado, sem perturbações nem combate, não somente as suas conquistas materiais – um certo nível de vida, uma legislação social, direitos cívicos e políticos – mas também o instrumento principal dessas conquistas; isto é, suas organizações. Assim, essa passagem ‘a frio’ para o fascismo pressupõe a mais terrível capitulação política do proletariado que se possa imaginar.

Os dados do gráfico acima mostram que o Estado burguês tem sido bastante bem sucedido em conter o movimento operário no mundo todo e por um longo período, poderíamos falar então que estamos diante da mais terrivel das capitulações em escala planetária?

A situação brasileira foi repercutida em particular aqui.

Lula prisioneiro dàs imposições da burguesia

É nos marcos dessa repressão ao movimento operário, que Lula é preso em 7 de abril de 2018. Tratava-se do ponto mais alto de uma escalada de perseguição, que como discutimos aqui, repetimos, uma escalada de perseguição que partiu da base petista, essa sempre perseguida , até os seu mais importante dirigente.

Por ocasião dos 4 anos da prisão de Lula, o PT no Senado emitiu um comunicado onde diz:

Os últimos anos da conjuntura política no Brasil possuem dias marcantes e portadores de simbologia para interpretar o conjunto de fatos. O estudo da História do país a ser feito pelas gerações vindouras certamente não ocorrerá sem discorrer sobre o dia 7 de abril de 2018, em que a Lava Jato atingiu seu ápice e executou o mandado de prisão daquele que representava o coroamento público de sucesso da operação em seu marketing de se vender como instrumento de combate à corrupção.

Após anos fazendo a sociedade crer estarem passando o país a limpo, com o apoio da imprensa empresarial e do establishment, Sérgio Moro e o conjunto de procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal em Curitiba cumpriram o objetivo de sua maior obsessão.

https://ptnosenado.org.br/4-anos-da-prisao-de-lula-lembrar-para-que-nao-se-repita/

trecho irrefutavel, foi exatamente isso que aconteceu, porem, na sequencia podemos ler:

Contudo, a prisão do ex-presidente Lula, como quase tudo que o cerca, fugiu do script escrito por seus algozes. Não houve um líder humilhado, algemado, rendido. Ao oposto, Lula foi “entregue” aos carcereiros por milhares de militantes que se aglomeraram em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), durante os três dias que antecederam sua condução a Curitiba para ocupar uma cela no complexo da Polícia Federal.

https://ptnosenado.org.br/4-anos-da-prisao-de-lula-lembrar-para-que-nao-se-repita/

Esse trecho é puro e simples revisionismo histórico, em momento algum os militantes presentes em São Bernardo Campo entregaram Lula, ao contrario, os trabalhadores reunidos do lado de fora do Sindicato dos Metalúrgicos queriam resistir. Parece que o PT no senado tenta esconder essa disposição de luta de sua base politica, para melhor legitimar suas posições equivocadas e tentar passar a ideia de que o golpe de Estado acabou, quando os golpistas continuam cerceando as posições do partido e cobrando mais e mais profissões de fé no marco daquilo que eles chamam Estado democrático de direito. Estado que não foi capaz, nem ao menos, de garantir a defesa do povo contra o virus da covid-19. Neste sentido, a escalada da perseguição continua. Agora de uma forma menos aberta, muito mais disfarçada. Como preconizou Kristalina Georgieva no Forum Mundial de Davos ha dois anos (ver aqui Davos e o Dificil Equilibrio do Sistema).

o agravamento do mal-estar social em muitos países —devido em alguns casos à deterioração da confiança nas instituições tradicionais e a falta de representação nas estruturas de governo— poderia abalar a atividade [econômica], complicar as iniciativas de reforma e prejudicar a atitude, o que faria o crescimento diminuir para aquém do projetado

https://cienciaerevolucao.blogspot.com/2020/02/davos-fmi-e-o-dificil-equilibro-do.html

Mais uma vez o Altermundialismo

A situação teve um tremendo agravamento, as economias do Mundo carecem de uma destruição maciça de “ativos” , ou melhor, uma destruição intensa de empresas, empregos e maquinario, em uma palavra, uma destruição ainda mais intensa de forças produtivas (ver aqui, aqui e aqui), o que obriga a burguesia a colocar a hipótese de , mais uma vez, contar com Lula e o PT como muralha de contenção contra as reivindicações populares e, ao que parece, Lula e o PT têm feito máximos esforços para corresponderem a este chamado dos patrões.

O informativo Voz Operária percebeu com precisão o papel do Vaticano nos acontecimentos que envolveram a prisão de Lula.

No dia 06 de abril, dia que Moro determinou para Lula se entregar, a militância já se encontrava em milhares rodeando o sindicato e disposta a tudo para Lula não ser preso. Aquele episódio poderia ter criado um ponto de inflexão ao golpe e derrubado uma decisão ilegal da operação criminosa Lava-Jato. Gleisi, na condição de Presidente do Partido, dizia à imprensa que Lula não ia se entregar e iria ficar com a militância. Naquela data, se debatia se Lula aceitaria a decisão arbitraria da Lava-Jato ou se ficaria na Sindicato em vigília com a militância, que estava vindo de todo o país. Nesse mesmo dia, chegou à sede do sindicato uma delegação de bispos, que defendiam que Lula se entregasse para “evitar um derramamento de sangue”, na palavras deles na época.

Como desdobramento das conversas entre a direção do PT e a Igreja, foi convocada para o dia seguinte, dia 07 de abril, sábado, um ato ecumênico com uma missa em memória da ex-primeira dama Marisa Letícia, falecida por culpa da Lava-Jato, onde participaram Lula e diversas lideranças do campo de esquerda e da Igreja Católica.

O bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino, celebrou uma missa em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, aconselhando publicamente Lula se entregar e não arriscar sua saúde. Ele no papel de emissário do Vaticano, apesar de não declarar isso oficialmente, mas que os fatos históricos posteriores comprovam isso, disse: “Não é que nos (Igreja) queremos, não é que muita gente no exterior quer (Vaticano), mas… Lula, você precisa cuidar da sua saúde”.

https://vozoperariarj.com/2022/03/09/reciclagem-do-neoliberalismo-e-o-vaticano-no-golpe-de-estado-de-2016/

O mesmo Jornal Voz Operaria relata o anticomunismo de Leonardo Boff, o mesmo Leonardo Boff que é um antigo entusiasta do Fórum Social Mundial e da democracia participativa, onde reúnem-se um amontoado de Organizações Não Governamentais sustentadas por mega fundações, como apurou o portal Viomundo, ligadas a bilionários como George Soros, Bill Gates e etc.

O Altermundialismo e a doutrina Social da Igreja

O Altermundialismo deita suas origens teoricas na doutrina Social da Igreja Católica, resenhada aqui pela falecida revista Ciência & Revolução. Podemos ler na enciclica Rerum Novarum enciclica papal que deu origem a doutrina social da igreja

Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar aos Municípios ou ao Estado. Mediante essa transladação das propriedades e essa igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam aos cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática

https://cienciaerevolucao.blogspot.com/2020/06/antipetismo-versao-brasileira-do_86.html

Não seria justamente isso que propõem o Altermundialismo, não seria exatamente uma combate para impossibilitar os trabalhadores de contarem com suas próprias organizações, independentes dos patrões, destacando aqui a independência financeira, vejamos mais um trecho

O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos.

Justamente a enciclica rerum novarum quem estabelece o conceito de sociedade civil na doutrina social da igreja, uma sociedade onde os conflitos são negados, onde não há contradições essenciais, mas sim a obediência ao julgo patronal e a aliança capital-trabalho. Portanto, a intromissão da igreja na campanha Lula e nos acontecimentos da luta de classes são ainda mais profundos , do que tão bem diagnosticou o jornal Voz Operária.

Impedir que os trabalhadores combatam por suas reivindicações e aceitem condições cada vez piores de trabalho

Como vemos o resultado da adesão das lideranças operarias a doutrina social da igreja tem sido muito efetivo em afastar as direções das organizações dos trabalhadores de suas bases sociais. Por certo a ausência de um balanço da campanha Lula-Livre e de um balanço da luta contra o golpe de Estado em geral, demostram o quanto as direções querem passar para debaixo do pano a luta contra o golpe, reduzindo esta luta a um combate contra Bolsonaro, que é apresentado como um fato sem causa, ou resultado da ignorância do povo trabalhador, como repercutimos aqui.

Uma vez mais a perseguição Politica

Como podemos ver, a perseguição politica é capaz de tomar formas bem disfarçadas, porem a independência das organizações dos trabalhadores , em particular a independência financeira , é uma condição necessária , porem não suficiente para a manutenção do combate contra o imperialismo. Nos fatos, um necessário balanço da campanha da liberdade de Lula e, de suas consequências, precisa ser estabelecido, antes que a memoria desta campanha venha a ser distorcida pelos agentes do imperialismo e as lições para a luta contra a perseguição politica não possam ser apreendidas pelos trabalhadores.

O encerramento deste texto, não poderia deixar de citar um trecho da carta da companheira Ediane ao presidente Lula:

O Sr viu alguma ação do agro-negócio pra combater a fome?.. Então, Presidente Lula, o motivo da minha carta pro Sr. é pra dizer que nós estamos cansados de ser pisoteados enganados. Também prá dizer pro Sr tomar cuidado com os acertos e alianças políticas e que o Sr não se esqueça de que tem uma multidão de sem-terra, de sem-teto, de sem comida, que não está podendo mais esperar. Nós não vamos mais aceitar que o partido dos trabalhadores não faça um governo para os trabalhadores. Nós queremos a reforma agrária e urbana, nós queremos a anulação da reforma da previdência e que seja feito um novo texto onde não se tire os direitos dos trabalhadores, Nós queremos o nosso país de volta! Nós queremos comer presidente Lula.. 

Publicado por Emdefesadomarxismo

Somos um grupo de militantes simpáticos ao Partido dos Trabalhadores, que luta contra a perseguição politica sofrida pelo partido e principalmente pelos seus militantes de base. Nós entendemos que, A emancipação dos trabalhadores é hoje e, a cada dia mais, a ultima esperança da humanidade frente a barbárie capitalista. Contudo, a emancipação dos trabalhadores não pode ocorrer sem uma ciência dos trabalhadores , sem entender os seus dias , sem confrontar a teoria marxista , que é a teoria operária com a realidade da classe trabalhadora. Este é o objetivo de Ciência dos Trabalhadores. Existem sim uma ciência Operária , mas essa ciência precisa ser construida e hoje , como no passado a ciência dos trabalhadores é condição necessária para sua emancipação . Como condição necessária , a ciência operária precisa também ser obra dos trabalhadores. Por isso convidamos a classe trabalhadora a se expressar em nossas paginas .

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